Fé cega na reprovação

Fé cega na reprovação

O GLOBO | 03/04/2016

Estudo revela crenças de professores a respeito da repetência, prática que é comprovadamente ineficaz para resolver problemas de aprendizagem

Professores que mais defendem a reprovação são também os que menos conhecem sobre os efeitos dessa prática. Além disso, tendem mais a concordar com a ideia de que todos os estudantes, independentemente da origem social, devem receber a mesma atenção. Ser reprovado ou aprovado, ao fim, seria apenas uma questão de mérito, de reconhecimento do talento ou esforço individual. Este princípio se contrapõe à ideia de que todos podem aprender, desde que aqueles que mais precisam recebam também maior atenção, melhores professores, e práticas pedagógicas adequadas.

Essas constatações são de uma pesquisa divulgada pelo Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária), com base na resposta de mais de 5 mil professores que se inscreveram num programa de formação docente da entidade. A pesquisa identificou que as posições pessoais mais extremas a favor ou contra a reprovação são minoritárias (13% se declararam a favor, e 9% contrários). Quando são questionados a respeito da opinião de seus colegas, porém, 54% dos docentes dizem que a maioria é favorável à prática. Um dos objetivos da pesquisa foi captar essas crenças para ajudar na reflexão de como elas devem ser trabalhadas na formação de professores.

Apesar de todas as evidências em contrário, paira ainda no imaginário de muitos a ideia de que o bom professor seria aquele rigoroso, que não deixa passar de ano os alunos que não aprenderam. O problema é que a tendência é que o aluno reprovado não melhore de desempenho no ano seguinte, aumentando os riscos de que venha a abandonar a escola.

Já citei aqui na coluna o trabalho do pesquisador John Hattie, da Universidade de Auckland. Ele escreveu um livro (“Visible Learning”) em que faz uma síntese de mais de 800 meta-análises sobre variáveis que impactam o aprendizado. Meta-análises são pesquisas mais robustas por compilarem vários estudos sobre o mesmo tema, o que aumenta o grau de confiabilidade no resultado. É sempre um desafio complexo mensurar o impacto de fatores escolares isolados no desempenho do aluno. Tanto que, de 138 práticas investigadas no livro, a maioria teve impactos pequenos ou nulos, e cinco foram identificadas até como prejudiciais ao estudante. Entre elas estava a reprovação. “É difícil encontrar outra prática educacional em que a evidência científica seja tão inequivocadamente negativa”, escreveu Hattie em seu livro.

A ideia de que reprovar é uma boa política ressurgiu com força na década passada, quando algumas redes introduziram políticas de ciclo no ensino fundamental. De repente, a chamada “aprovação automática” virou explicação mais comum para as mazelas educacionais do país, um argumento que ignorava o fato de que, mesmo no auge da repetência e antes dos ciclos, nossos indicadores de qualidade já eram sofríveis.

A raiz do problema, porém, nunca esteve na aprovação automática ou nas altas taxas de repetência. Usando uma analogia médica, ao insistir na reprovação, o que fazemos é o equivalente a dar para um paciente com alguma enfermidade grave um antibiótico de fortes efeitos colaterais, mas sem nenhuma eficácia comprovada para atacar aquela doença. Suspender o antibiótico pode acabar com os efeitos colaterais, mas tampouco resolve o problema. A questão é que a maioria dos alunos não estão aprendendo o que deveriam. E, para isso, infelizmente, não há remédio simples ou de efeito imediato.

Para acessar a publicação original, clique aqui 

Para acessar a pesquisa, clique aqui 

 

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