De educador para educador

De educador para educador

Em entrevista, Maria Amabile defende que a valorização do professor passa por carreira atraente e formação de qualidade

Formação precária. Baixos salários. Carreira pouco atraente. Infraestrutura precária. Profissão solitária. Esses são alguns dos desafios que o país precisa superar para que os educadores sejam reconhecidos, de fato, como atores centrais na garantia do direito à educação pública de qualidade para todos os brasileiros. Na semana do professor, Maria Amabile Mansutti, coordenadora técnica do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária), aborda como estes problemas podem e devem ser superados para que a valorização da carreira docente seja uma realidade.

Graduada em Pedagogia pela USP (Universidade de São Paulo), Amabile atua há mais de 40 anos como educadora. Nesse período, ocupou diferentes postos e funções, entre eles foi professora, diretora de escola e do Departamento de Política da Educação Fundamental da antiga Secretaria da Educação Fundamental (SEF) do Ministério da Educação (MEC); integrou a equipe que elaborou os “Parâmetros Curriculares Nacionais de Matemática de 1ª a 8ª série do Ensino Fundamental” e a “Proposta Curricular para o Primeiro Segmento do Ensino Fundamental: Educação de Jovens e Adultos”.

Por que tantos professores deixam a sala de aula?

Amabile: Via de regra, os professores com melhor formação e mais experiência deixam a sala de aula para atuar na direção, na coordenação pedagógica ou em áreas técnicas das redes de ensino, muitas vezes na formação continuada. Para eles, esta é a única forma de galgar patamares mais altos de remuneração e reconhecimento. Isto porque a carreira não favorece a progressão profissional. De acordo com a Tallis 2013, pesquisa internacional sobre Ensino e Aprendizagem, quase um terço dos professores brasileiros trabalha há dois anos ou menos em sua escola. Em 2015, atuavam no Brasil mais de 2 milhões de professores, porém, uma parcela significativa deles não permanecerá na sala de aula ao longo de sua vida profissional. Basta acompanhar a quantidade de concursos e contratações de grande contingente de professores temporários realizados anualmente pelas secretarias de educação. Em que pese outros fatores, o acúmulo da experiência em sala de aula é um bom indicador para avaliar se as redes de ensino estão ou não garantindo o direito à educação.

 

Como valorizar a carreira docente?

Amabile: A superação deste cenário passa, necessariamente, pelo cumprimento do Piso Nacional do Magistério, que destina 1/3 da jornada às atividades extraclasse, e da Meta 17 do Plano Nacional de Educação, que prevê, em 10 anos, a equiparação do rendimento médio de professores com demais profissionais com escolaridade equivalente, reconhecendo assim uma defasagem histórica que precisa e deve ser corrigida. Além da remuneração, é preciso um amplo investimento na formação inicial e continuada de qualidade, focada nos processos de ensino e aprendizagem, e na garantia de boas condições de trabalho. Outro ponto fundamental é a construção de planos de carreira atrativos, com diferentes níveis, que reconheçam, não apenas o tempo de serviço, mas a formação do professor.

 

Qual é o papel das redes de ensino na valorização docente?

Amabile: Primeiramente, assegurar que a remuneração seja feita a partir de critérios que reconheça e diferencie o esforço empenhado por um iniciante, que ainda está no estágio probatório e tem formação básica; de outro professor mais experiente, que se especializou em sua área de atuação, como na alfabetização ou na educação de jovens e adultos. Mas não só o tempo de experiência faz a diferença, o aperfeiçoamento da prática docente também deve ser levado em conta. E isto só ocorre quando há o equilíbrio entre a atuação em sala de aula e a formação continuada na própria escola, o que permite a investigação, a análise e a revisão das estratégias de ensino, a partir da produção dos alunos. Ao invés de contratar novos professores em caráter precário, é necessário investir na atratividade da carreira. Contudo, os salários baixos, a falta de bons planos de carreira e as duras condições de trabalho desencorajam estes recém-formados a seguirem a carreira docente.

 

Por que a docência é uma profissão solitária no Brasil?

Amabile: A solidão é decorrente da falta de apoio que eles recebem. Não basta apenas ampliar o convívio com outros educadores, mas sim assegurar que as interações sejam de qualidade, ou seja, que favoreçam a reflexão, a troca e a construção de conhecimentos sobre a prática docente. Contudo, a escola é, essencialmente, um ambiente do fazer. Basta acompanhar sua rotina para notar como todas as demandas são urgentes. Há sempre algo a ser resolvido. Os momentos de troca entre gestores e professores costumam ocorrer como respostas a situações de crise ou conflito, que poderiam ser evitadas caso houvesse mais espaço para reflexão e planejamento.

 

Como superar este quadro?

Amabile: É fundamental que diretores e coordenadores se constituam efetivamente como lideranças pedagógicas, que provoquem, estimulem, organizem e acompanhem a formação na escola. Formação que impregne as escolas com os ares de um movimento de profissionalização caracterizado por uma atuação com autonomia e exercício de cooperação, criatividade, que gerem práticas de intervenção e transformação, com base na produção dos alunos. Práticas que demandam conhecimento, sensibilidade, desejo, responsabilidade, exercidas no coletivo e com coletivo. Movimento que ajude os professores a construírem pontes entre a realidade do trabalho e os objetivos pretendidos. Todavia, é importante ressaltar que a escola não está sozinha. Para amenizar o problema da solidão, cabem aos sistemas de ensino induzir uma nova proposta que articule formação e desenvolvimento profissional, na medida em que resignifiquem a carreira do magistério, por meio de revisões no plano de carreira e na garantia de condições essenciais para que a atuação de professores aconteça a contento.

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