Olimpíada da Língua Portuguesa promove formação para professores que atuam na Fundação Casa

Olimpíada da Língua Portuguesa promove formação para professores que atuam na Fundação Casa

O Auditório do Cenpec foi o cenário para a realização de uma formação que destacou o poder da palavra. Organizada pelo Programa Olimpíada da Língua Portuguesa – Escrevendo o Futuro e conduzida pela professora Imaculada Pereira (da seção Pérolas da Imaculada do portal Escrevendo o Futuro), a atividade presencial foi destinada à professores que atuam na Fundação Casa e por arte-educadores do projeto Educação com Arte, que também trabalham dentro da complexa instituição destinada à jovens que cumprem medida socioeducativa em privação de liberdade.

Por meio de letras de canções de Noel Rosa e materiais produzidos e veiculados na Revista Na Ponta do Lápis, foi realizada uma verdadeira vivência de leitura e escrita. Depois de lerem e refletirem coletivamente sobre trechos de poemas e letras de música, os profissionais foram convidados a produzirem, em grupos, uma crônica onde promovessem um diálogo entre as discussões e a letra do samba Com que Roupa, de autoria de Noel Rosa.   O objetivo da formação foi fornecer elementos e orientações para que os professores possam trabalhar conteúdos da língua portuguesa junto aos jovens da Fundação. O exercício resultou em crônicas com muita poesia e mostrou a importância de se desenvolver a arte da escuta, muitas vezes esquecida em sala de aula.

O Cenpec conversou com Maria da Penha Silva, professora que atua na Fundação Casa (em 2014, um de seus alunos foi premiado na categoria poema) e Rodrigo Pirituba, arte – educador do Projeto Educação com Arte,  sobre a importância de iniciativas como essas e sobre o poder da palavra no trabalho com a juventude que vive na instituição. Confira abaixo o resultado do bate-papo.

E lembre-se: as inscrições para a Olimpíada da Língua Portuguesa – Escrevendo o Futuro seguem até 30 de abril. Veja mais. 

Cenpec – Como atividades como essa, que aconteceu hoje no Cenpec, auxilia você em sala de aula na Fundação Casa?

Maria da Penha Pereira – As informações transmitidas em formações como estas são muito ricas. Ela nos passa o pensar e, com os colegas, a partir da experiência de cada um nesta vivência, construímos o agir. Por exemplo, a proposta de nos reunirmos em grupo para escrever um texto coletivamente, trouxe a questão da diversidade de pensamentos e dos  tempos individuais. Nela pude pensar nos meus alunos e suas dificuldades que, muitas vezes, a gente não entende. Essa é a riqueza de oficinas como estas. Também observei a dinâmica da professora Imaculada Pereira na condução da oficina: o ir e vir, o sorriso no rosto, a comunicação fluída. Tudo isso a gente observa e leva para a sala de aula. O professor hoje está muito duro e restrito e observando a Imaculada percebemos a forma amorosa com que estes conteúdos são transmitidos e isso faz com que o entendimento do que está sendo passado e a integração entre aluno e professor só melhore. Por isso estas capacitações são fundamentais.

Cenpec – Você atua há muito tempo no interior da Fundação Casa, o que você destaca de dificuldades e alegrias deste trabalho?

Maria da Penha Pereira – Levamos para lá o pedagógico, mas o aluno já tem a vivência dentro da instituição. Então quando chegamos há uma pessoa ali que precisa ser descoberta e que nos questiona a saber como trabalhar com ela. A problemática é que não é apenas um aluno, mas cerca de 17 e multiseriados, ou seja, há alunos em distintos graus de ensino.  São jovens que, pelo seu histórico de vida, não se habituaram a ir à escola. Esta situação é complexa: fazê-los perceber que somente a cultura e a educação podem transformá-los e despertar neles essa vontade de mudar.  Nosso desafio é fazer com que eles entendam que o saber é também se conhecer a si e ao outro.

Tenho um aluno muito quieto que me perguntou: “o que é ser humano para a senhora?”. Uma questão profunda, que precisava responder como pessoa e pedagoga. Respondi: “é você se enxergar no outro e fazer para ele o que gostaria que a ti acontecesse; desenvolver o melhor para si e o outro e acreditar”. Eu aprendo muito lá e foi por isso que iniciei o trabalho. Desconstruí diversos pré-conceitos que eu tinha com aqueles jovens. Nestes 14 anos, aprendi a ver naqueles meninos a falta de oportunidade de aprender, de conhecer um bom autor, um bom texto. Eles não tiveram oportunidades. O difícil é fazê-los acreditar que só a educação salva; que eles podem sim, fazer diferente, ter uma outra história. Quando cheguei com a proposta do Escrevendo o Futuro, muitos disseram que aquilo não era para eles porque a sociedade não iria aceitá-los, mas eu sou otimista e persistente. O trabalho com a leitura e a escrita é algo contínuo. Situá-los como integrantes da sociedade é muito importante neste caminho.

Cenpec – Como os materiais de formação do Programa Escrevendo o Futuro contribuem para o seu trabalho?

Maria da Penha – Depois que eu conheci o Portal da Língua Portuguesa, levei os jogos de ortografia, os textos da oficina de 2014, tirava cópias que eram reutilizadas e apresentava os autores para eles, o que eles pensavam.  As formações são um guia para nós. Sem a capacitação, falta a dinâmica, a orientação. Por mais que a gente estude, nada substitui termos  o acesso à vivência. Os materiais em conjunto com as formações é algo maravilhoso. E a gente também aprende muito neste processo todo. Na edição passada por exemplo, eu trabalhei com memórias, crônicas e poemas. A gente ia transmitindo os conteúdos por camadas e se não houvesse a orientação, tudo seria mais complicado. O Portal é um grande companheiro de trabalho. Ele nos inspira muito. Neste ano já comecei a trabalhar com os textos dos vencedores de 2014, abordando crônica a argumentação. Ou seja, uso a própria produção dos alunos para trabalhar com outros alunos, de maneira a incentivá-los e mostrar como é possível, sim, participar. Agora imagina como seria nosso trabalho sem estes materiais?

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Cenpec – Como você utiliza o trabalho de letramento através da sua atividade de arte-educação?

Rodrigo Pirituba – Na verdade, muitos meninos não são sequer alfabetizados. Então utilizo esta formação na parte musical (minha área de atuação) para trabalhar a questão do letramento. Utilizo o samba e os compositores. Levo para eles letras de música e a gente acaba discutindo temas atuais, como por exemplo, as canções do Bezerra da Silva, um cronista mais contemporâneo. Noel Rosa é super legal, mas tem uma algo mais lírico, que data do começo do século 20 que funciona até certo ponto. O Bezerra da Silva, por ser mais direto, se relaciona mais facilmente com a posição que os meninos ocupam socialmente. Trabalho também com poetas da periferia paulistana, como Rodrigo Ciríaco, Sergio Vaz, Ferréz, além dos MCs do rap, que subvertem o português de uma maneira que eu consigo acessar estes garotos porque estas letras e poemas fala direto à realidade deles.

Cenpec – E quando você apresenta estes poetas, rappers e  cronistas do samba, como é o retorno dos jovens?

Rodrigo  –  Eles se identificam com muitas das situações relatadas nas letras de músicas e poemas e isso abre um leque de opções para se discutir a questão do lugar social deles perante a sociedade e questões de auto estima. Eu utilizo poetas que trabalham com causas sociais e isso gera uma reflexão importante. O samba e o rap tem um acesso imediato, pelas batidas, pelas histórias, pelas frases e isso os toca imediatamente. 

Cenpec – E como isso afeta e se relaciona com o incentivo ao letramento?

Rodrigo – Se ouvirmos o rapper GOG por exemplo: as letras são extensas, mas é uma linguagem tão acessível e direta que comunica de uma forma muito eficaz. Mesmo os poemas da literatura de cordel ou a obra de Patativa do Assaré, que tem palavras de um vocabulário rural, ajuda-os no letramento. Ao lerem mais, eles se interessam em escrever melhor. O envio das cartas para a família é um grande incentivo para eles escreverem mais.  Sempre no final das minhas oficinas, eles me encaminham cartas pessoais. Tenho muitas delas em casa e percebo como eles escrevem bem. Posso dizer que eles não cometem erros,  mas sim alguns enganos com o português. Lá há muitos talentos. Já li conteúdos de uma perfeição que me impressionou.

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