Pais usam estratégias para burlar matrícula obrigatória

Por Margarida Gorecki

Apesar de lógico, matricular os filhos no colégio mais próximo de casa nem sempre é a primeira escolha. Em busca de escolas de melhor prestígio, muitas mães e pais tentam driblar o sistema de matrícula setorizada, que encaminha automaticamente o aluno para uma instituição de ensino perto de sua residência.

Os motivos para esses pais evitarem determinados colégios variam: alguns dizem que nos lugares mais pobres as escolas têm menos qualidade, pior infraestrutura e os professores faltam muito; outros querem que os filhos estudem em áreas mais centrais para evitar que fiquem próximos de outros jovens do mesmo bairro, tidos como más companhias. E ainda há aqueles que não concordam com a escola escolhida pelo sistema por questões mais práticas, como dificuldade de transporte até o local.

Lígia*, de São Miguel Paulista, bairro na periferia de São Paulo, é uma dessas mães que sofreram com a falta de oportunidade para escolher a escola ideal. Sua filha concluiu a pré-escola no ano passado e agora precisa mudar de colégio, mas foi encaminhada justamente para a instituição de menos prestígio em seu bairro, tida como desorganizada e com o ensino fraco.

Na secretaria da antiga escola municipal de educação infantil (EMEI) de sua filha, outros pais manifestavam a mesma preocupação. “Desde o meio do ano passado as mães já começam a chegar aqui aflitas, querendo saber para qual escola os filhos iriam”, diz um funcionário da secretaria da EMEI, que não quis se identificar. Para tentar evitar que sua filha fosse encaminhada justamente para a escola que ela não desejava, Lígia pensou em usar o comprovante de residência de uma amiga, que mora em outro bairro. Deste modo, o sistema automático de matrícula registraria que a moradia de sua filha era em outra região, e a encaminharia para uma escola diferente. Mas Lígia perdeu o prazo para a alteração do cadastro da menina, e agora pensa em outras formas de contornar a situação.

Rosa* também teve problemas com a setorização da matrícula, mas por outros motivos. Quando o seu filho tinha 13 anos, a escola que ele frequentava, em Carapicuíba (SP), informou que ele só poderia dar continuidade aos estudos no turno da noite. “Achei um absurdo colocarem uma criança dessa idade para estudar das 19hs às 22h50”, diz. Ela tentou inicialmente buscar outra escola dentro do seu município, mas a única opção exigiria uma viagem de ônibus de 45 minutos de casa até a escola. A solução encontrada pela mãe foi conseguir um comprovante de residência com o patrão de seu tio, que mora na cidade vizinha, Cotia. “Diversos colegas do Matheus fizeram o mesmo. Essa prática é bem comum”, conta Rosa.

“Para evitar que pais tentem burlar as regras da matrícula setorizada é necessário melhorar a qualidade das escolas nas áreas mais vulneráveis do país”, afirma Anna Helena Altenfelder, superintendente do Cenpec. Segundo ela, para reverter esse quadro é preciso garantir mais recursos, apoio técnico e pedagógico às escolas, articular as políticas de educação, saúde e assistência social e assegurar a permanência de professores bem preparados e motivados a trabalhar nas escolas de baixo prestígio.

* Os nomes foram preservados a pedido dos entrevistados.

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