Opinião: Dia dos Professores: a valorização não cabe em um dia

Opinião: Dia dos Professores: a valorização não cabe em um dia

UOL | 26/09/2017

POR ANNA HELENA ALTENFELDER

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No próximo dia 15 de outubro, é celebrado o Dia dos Professores no Brasil. Assim como em diversos outros países do mundo, reservamos uma data oficial para homenagear esses profissionais, que são fundamentais para se garantir o direito à aprendizagem para todos.

Um dia ao ano, porém, está longe de ser suficiente para celebrar o trabalho docente e também para discutir as situações enfrentadas por eles em seu fazer cotidiano nas salas de aula pelo Brasil afora, ou as graves questões de desrespeito, violência e desvalorização que sofrem todos os dias. Não por acaso, há quem veja a data com reservas, inclusive entre o professorado.

Não gostaria, contudo, de passar a data sem dar o meu reconhecimento aos meus colegas de profissão. Nestes vinte anos em que atuo como formadora de professores e pesquisadora na área de educação, tenho o privilégio de ter conhecido de perto o trabalho de milhares de profissionais da educação, muitos deles bem de perto. São professores e professoras, com idades, níveis de formação e condições de trabalho diversas, que atuam em escolas públicas de todos os estados brasileiros, em municípios de grande, pequeno e médio porte e em territórios com diferentes índices de vulnerabilidade.

Neste percurso não conheci heróis ou heroínas, ou pessoas que desempenhavam uma “missão” ou sacerdócio, mas sim profissionais sérios, competentes, comprometidos com sua atividade e desenvolvimento profissional e, mais do que tudo, com a aprendizagem de seus alunos.

Na esperança de contribuir para uma visão mais precisa sobre a enorme responsabilidade de seu papel e dos muitos saberes que são necessários para seu exercício, convido os leitores a conhecerem a atuação de alguns professores de escolas públicas brasileiras.

Luciano Nascimento Leite é professor de educação infantil na cidade de São Paulo. Ao trabalhar a cultura indígena, tema inserido no projeto político-pedagógico da escola onde atua, teve a preocupação de adequar o projeto à faixa etária de seus alunos e ao mesmo tempo romper estereótipos tão comumente atribuídos aos povos indígenas. Resultado? Uma visita à aldeia Tenondé Porã, em Paralheiros, zona sul da capital paulista. Na vivência, os alunos puderam experimentar a alimentação indígena, bem como conhecer instrumentos, as ocas e a arquitetura da aldeia.

Na outra ponta da educação básica, no ensino médio, a Professora Ayanda Lima, de Itumbiara, em Goiás, liderou um projeto com sua turma para produzir um extrato purificador de água a partir da semente de uma planta local.

Partindo da leitura e análise das questões socioambientais da comunidade do entorno da escola, identificaram o problema de acesso à água potável e, usando conhecimentos do currículo de Biologia e de outras áreas, propuseram a solução. Isso tudo com uma turma que, no inicio do ano, era considerada “a pior da escola”. Foi por sorteio que ela foi atribuída a Ayanda, mas a professora não desistiu de seus alunos, acreditou neles e planejou uma forma de motivá-los e envolvê-los. Pelo mérito de propor a aplicação práticas dos conhecimentos escolares, a professora e a turma foram reconhecidas com o primeiro lugar em um concurso nacional.

No Pará, em Vitória do Xingu, trabalhando produção de texto com alunos do 5ª ano do ensino fundamental, o professor Edio Soares da Silva não desistiu ao constatar, no início das aulas, as dificuldades apresentadas pelos estudantes. Lançou mão de muita leitura, exercícios, atividades de ampliação de vocabulário e oficinas com diferentes recursos poéticos. Trouxe até seu violão para a sala de aula e convidou o poeta da cidade vizinha para conversar com as crianças. Acreditou no potencial e nas possibilidades de cada um. Desafiou, deu apoio, incentivou, não deixou ninguém desistir. O resultado? “Meu coração acelera, meu ser flutua de contentamento, enquanto arrumo meus pensamentos depois de mais uma pescaria árdua, debaixo de sol, chuva e de muita poesia fisgada por um professor, pescador de momentos ímpares como esse”, relata Edio.

Em Itanhaém, no litoral de São Paulo, a professora de língua portuguesa do 8º ano do Ensino Fundamental Daniela Borges observou que muito dos seus alunos, moradores da zona rural, sentiam-se envergonhados de seu lugar de origem. Propôs então um trabalho de produção de um texto de memórias literárias, para o qual a coordenadora pedagógica da escola foi entrevistada e relatou sua infância em um sítio. Com a atividade, os alunos puderam se reconhecer na história e com isto se sentiram prestigiados e puderam ressignificar sentidos sobre o lugar onde vivem.

Mas o que têm em comum, Luciano, Ayana, Daniela e Edio, que moram em cidades tão diferentes e dão aula para estudantes de séries diversas? Em primeiro lugar, os quatro acreditam que todos os seus alunos podem aprender, postura fundamental em um profissional da educação. Os quatro também têm clareza de que a atividade docente não se constitui só da dimensão cognitiva. Todos eles planejaram cuidadosamente suas aulas, deixando evidente o que ensinam para seus alunos, mas, considerando também a dimensão afetiva e política de sua atividade.

Daniela e Ayanda, por exemplo, ao ensinarem, respectivamente, Português e Biologia, possibilitaram que seus alunos pudessem se sentir mais confiantes e acreditassem nas próprias capacidades. Da mesma forma fez Edio, incentivando os alunos a correrem riscos, a enfrentarem desafios e a persistirem. Luciano, na educação infantil, trouxe aos seus alunos a questão da diversidade e do respeito às diferentes culturas que constituem a identidade do nosso país. Já Ayanda incentivou seus alunos a olharem de forma crítica a comunidade em que estão inseridos, a problematizá-la e a propor soluções para atuar nela de forma responsável, promovendo o bem comum.

Trata-se de quatro profissionais com muitos saberes e com um exercício profissional complexo, que exige enorme dedicação. A boa notícia é que existem muitos outros professores como esses em nosso país.

É urgente dar a todos as condições adequadas de trabalho, sem as quais não é possível o pleno exercício da profissão. Por isso, espero que possamos manter este debate para além do dia 15 de outubro, para conhecer, dar a visibilidade e voz no debate sobre educação aos milhões de Lucianos, Edios, Danielas e Ayandas que reinventam cotidianamente nossa educação.

 

ANNA HELENA ALTENFELDER é pedagoga, mestre e doutora em psicologia da educação e preside o conselho do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária). Já foi formadora de professores, autora de materiais de orientação, gerente de projetos e docente universitária.

Para acessar a publicação original, clique aqui.

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