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08 FEVEREIRO 2010
SEGUNDA-FEIRA
23:10
TIC - Tecnologias da Informação e Comunicação : Para educador, incorporação da tecnologia nos ambientes de aprendizagem é irreversível
02/06/2008 (3124 leituras)



"As novas tecnologias já dominam dimensões importantes das vidas dos cidadãos. Deixar a educação de fora é uma atitude pouco inteligente". Ao justificar a tendência cada vez mais acentuada de adoção das tecnologias de informação e comunicação pelas escolas, o professor Jarbas Novelino Barato, mestre em tecnologia educacional e doutor em educação, sinaliza que estamos diante de um processo irreversível.

Mas essa estrada sem volta apresenta uma série de bifurcações e atalhos, muitos deles ainda a serem desbravados por educadores e especialistas. Nesse momento de descoberta, Jarbas prefere uma postura mais equilibrada, "sem deslumbramentos ingênuos, nem críticas inconseqüentes". Na entrevista a seguir, ele sugere uma remodelagem completa na arquitetura das salas de aula para acomodar as novas tecnologias e atenta para o fato de que a ferramenta por si só não resolve nada sem seu principal combustível: a imaginação.

Quais os principais argumentos favoráveis ao uso dos computadores em sala de aula?

Os computadores são, cada vez mais, instrumentos que facilitam o acesso a informações e a realização de múltiplas tarefas em todas as dimensões da vida humana. Ao falar de informação não estou pensando apenas em facilidades para obtê-las. Estou pensando nas facilidades que os computadores podem trazer para que nossos alunos avaliem e transformem informações.

Além disso, penso também na riqueza e variedade de informações que o tratamento digital proporciona. Há uma mudança que ainda não aprendemos como aproveitar em educação: imagem, som, movimento, representações manipuláveis de dados e sistemas (simulações), todos integrados e imediatamente disponíveis, oferecem um novo quadro de fontes de conteúdos que podem ser estudados, manipulados, pesquisados e transformados em processos de aprendizagem. Toda essa riqueza está disponível por causa dos computadores. Precisamos apenas encontrar modos criativos de aproveitá-la.

Na sua pergunta há uma expressão que me agrada: "computadores na sala de aula". Estamos mais acostumados à idéia de "computadores na escola ou na educação". E no cotidiano escolar, as novas máquinas têm um destino fatal: o laboratório de informática. Esta é uma solução infeliz. O laboratório é uma novidade que não se integra à vida da escola; e a sala de aula continua a ter a mesma arquitetura de um "escritório" do final da Idade Média. Se voltassem à vida, meus avós diriam que as salas de aula são as mesmas que conheceram no final do século XIX.

Entendo que os computadores precisam ir para uma sala de aula inteiramente transformada. Usos conseqüentes de meios digitais em educação deveriam transformar inteiramente a arquitetura interna das salas de aula. As carteiras escolares deveriam ser a primeira coisa a desaparecer do ambiente. Não seria necessário que cada aluno tivesse um computador. As máquinas poderiam ser alojadas em estações de trabalho a serviço de projetos coletivos dos alunos. Máquinas portáteis poderiam ser deslocadas no espaço de acordo com as necessidades de trabalho. É claro que seria necessário organizar o espaço para projeções. Outra coisa: seria muito bom contar com recursos de som que não ficassem reduzidos individualmente a cada máquina. Os móveis da sala de aula, uma vez eliminadas as carteiras escolares, deveriam ser algo bem confortável. Aliás, em vez de sala de aula, o ambiente físico de aprendizagem deveria ser transformado num "laboratório" (um local de produção de saberes). Sugiro aqui apenas uma direção, mas acho que é preciso fazer um sério estudo de arquiteturas de interiores para redesenhar completamente os ambientes de aprendizagem.

De que forma os computadores devem ser utilizados em sala de aula para que eles atinjam todo seu potencial como ferramenta educacional? Quais as aplicações mais promissoras?

Minha primeira resposta é: não sei. Essa ignorância é um grande limite e uma vantagem. É um grande limite porque ninguém pode afirmar com certeza quais são os melhores caminhos para usos dos computadores em educação. É uma grande vantagem porque nesse campo de ignorância geral todos estão autorizados a buscar soluções.

Posso dar alguns palpites que devem ser vistos com muita cautela. Num artigo recente utilizo a seguinte definição: tecnologia = ferramenta + imaginação. Acho, portanto, que usos educacionais de computadores somente serão conseqüentes se os educadores descobrirem formas imaginativas de empregar recursos digitais em seu ofício. Para clarear isso, recorro a um exemplo. Costumo perguntar a meus alunos de licenciatura como é que o Word pode ser utilizado em educação. Falta imaginação às respostas. Mas há saídas. Uma delas é a de adaptar a antiga proposta de redação colaborativa à produção de textos no Word.

Basicamente essa proposta consiste na criação de um início de texto cujo término é uma situação que se abre para dois ou mais caminhos. Os alunos são convidados a continuar o escrito. Essa atividade antes era feita com papel e lápis. No processador de texto ela oferece a possibilidade de tornar a produção mais dinâmica e "profissional". Com isso, sem qualquer mudança em sua estrutura, o Word passa a ser um belo instrumento para incentivar redações. Bons professores, se associarem criativamente redação cooperativa e Word poderão fazer trabalhos muito interessantes.

Como podem imitar quase tudo, os computadores são ótimos para oferecer aos aprendizes ambientes de simulação onde é possível verificar teorias, testar hipóteses, conduzir experimentos "frios" (sem perigos de qualquer ordem para o experimentador, para o meio ambiente e para outras pessoas), realizar descobertas, confrontar diferentes pontos de vista etc. Simulações baseadas em modelos bem fundamentados do ponto de vista científico são, na minha opinião, o que há demais promissor para usos educacionais de computadores. Durante cerca de cinco anos, uma equipe que eu coordenava desenvolveu um modelo de simulação no campo da microbiologia (o Microguerra). O programa lidaria com cerca de cento e sessenta variáveis de um modo bastante parecido com as muitas possibilidades de relação entre microorganismos e hospedeiros humanos (uma versão preliminar de nossa simulação já permitia o desenho de milhares de diferentes tipos de bactérias e vírus, além de alguns milhares de perfis de pacientes humanos). Mas o projeto foi abortado. Motivo: eu disse a quem de direito quanto custaria produzir a versão final do Microguerra.

Mas há muita coisa que exige quase que apenas criatividade e imaginação dos educadores. Neste momento, acho que as melhores promessas são as tecnologias da informação da Internet. Para aproveitá-las, podemos contar com modelos de organização de informações com WebQuests, WebGincanas, HotLists etc. Podemos trabalhar com blogs e com Wiki. Podemos desenvolver projetos colaborativos que utilizem plataformas de comunicação como e-mail, listas, grupos de discussão, fóruns etc. Nenhuma dessas possibilidades funciona automaticamente. Elas precisam ganhar vida a partir de propostas educacionais imaginativas.

Em seu blog, o sr. publicou uma frase de Neil Postman que diz: "As TICs já venceram a batalha, não adianta continuar a luta contra elas, cabe agora discutir os termos de rendição". O que o faz crer que a incorporação das TICs pela educação é um processo irreversível?

A escola até pode ignorar as novas tecnologias de informação e comunicação, mas as TIC's continuarão a ocupar espaços cada vez maiores no mundo em que vivemos. Novas tecnologias mudam tudo. Exigem espaço e grana. Combatem e até aniquilam as velhas tecnologias. Isso é um processo histórico irreversível. Precisamos compreender o que acontece. Ver quais são os prejuízos, quais são os ganhos. Precisamos não nos iludir com falsas promessas (coisa que os vendedores de máquinas e de sistemas fazem com muita freqüência). Precisamos vencer sentimentos de admiração que nos impedem de avaliar com clareza e equilíbrio o potencial dos novos meios de comunicação. A rendição à qual se refere Neil Postman caminha nessa direção: nem deslumbramentos ingênuos, nem críticas inconseqüentes. Se usar uma linguagem militar, a gente pode dizer que é necessário preparar-se para uma rendição negociada, não uma rendição incondicional. Desta forma ganharemos espaço para evitar a perda de algumas das virtudes das velhas tecnologias.

A escola até pode ignorar as novas tecnologias, mas estas continuarão a fazer a cabeça das pessoas fora da escola. Continuarão a exercer um papel importante na formação de identidades, na ocupação do tempo livre, na comunicação pessoal e profissional etc. Assim, mesmo que as escolas não usem TIC's intencionalmente, os novos meios de comunicação já estarão presentes nos ambientes de aprendizagem. Neste sentido, o processo é irreversível, pois ele já domina dimensões importantes das vidas dos cidadãos. Deixar a educação de fora é uma atitude pouco inteligente.

O que o sr. achou do estudo realizado na Unicamp que aponta queda de rendimento dos alunos que usam os computadores para realizar as tarefas escolares?

Os dados da pesquisa revelam um fenômeno que não é estranho. Os estudantes observados usam o computador para suas tarefas escolares num ambiente que tem apelos muito mais atrativos que as tais tarefas, o que pode ser um impedimento em algumas situações de estudo. Não basta acesso a computadores. É preciso contar com propostas que engajem os alunos em aventuras de aprendizagem que valham a pena. O episódio da pesquisa da Unicamp merece atenção. Há muita gente que pensa que simples uso de computadores fará milagres de aprendizagem. Bobagem. Novos meios exigem novas maneiras de apresentar informações, de propor trabalho, de sugerir caminhos. Exigem uma nova alma. Sem isso, a concorrência de jogos, filmes, músicas, comunicação com amigos, fofocas de todos os tipos ganharão facilmente a atenção dos estudantes. Os trabalhos escolares no caso serão feitos apenas para cumprir tabela. Não há nada de estranho nisso. Dificilmente os alunos aprenderão mais e melhor num cenário assim. Eles farão no computador as tarefas escolares sem vontade e sem capricho.

Há aqui um alerta importante para pais e escolas. Os vendedores prometem paraísos de aprendizagem com a compra de máquinas e serviços de distribuição digital de informações. Ferramentas não garantem per se bons resultados. No caso das escolas, o investimento mais necessário não é o de máquinas e equipamentos, é o de capacitação dos educadores e da criação de novos ambientes de aprendizagem. No caso das famílias, os pais geralmente têm uma visão mágica dos computadores, ignorando que além de máquinas é preciso que seus filhos tenham desafios que justifiquem dedicação em produções apoiadas por computadores.

Como o sr. vê as críticas que alguns especialistas fazem ao uso dos computadores na escola, dizendo que as máquinas forçam um pensamento abstrato que não é próprio para as crianças e que os aparelhos prejudicam a imaginação e levam à indisciplina mental? Quais seriam as formas de atenuar possíveis danos que os computadores podem acarretar às crianças devido ao seu uso indiscriminado?

Acho que o teor abstrato de funcionamento de computadores é uma questão programática, quase sempre invisível para quem usa tais máquinas. Neste sentido, não vejo qualquer prejuízo que o uso das máquinas possa trazer em termos de criatividade ou imaginação.

Talvez o tipo de raciocínio que permite programar - apelidado de raciocínio instrumental pelo cientista Joseph Weizenbaum - limite modos de apresentar conteúdos e sugerir atividades para os estudantes (crianças, jovens ou adultos). Weizenbaum critica bastante o entendimento de que vale a pena considerar apenas aquilo que é programável. George Miller, por exemplo, num artigo que escreveu sobre usos educacionais de computadores no início de dos anos de 1970, observava que um mau-caráter assistido por um computador não deixa de ser um mau-caráter. Há dimensões da experiência humana que não são programáveis. Tais dimensões, na visão de gente como Weisenbaum e Miller, cientistas que conhecem e usam computadores em seus ofícios, não podem ser deixadas de lado. Esta é uma discussão importante quando se quer conversar sobre usos educacionais de computadores. 

Do lado dos educadores, é preciso evitar deslumbramentos e propor atividades que impliquem em aprendizagens em uso de outros raciocínios que não o instrumental. Do lado dos pais é preciso fazer boas escolhas para não cair no erro de que simples presença da máquina em seus lares produzirá herdeiros mais inteligentes. Há coisas muito simples que não podem ser deixadas de lado. Desenhar à mão é uma delas. Nada substitui o sentimento de usar o próprio corpo para criar representações do mundo. Desenho, dança, esporte, canto, produção de ritmo etc. não cabem em computadores, mas são dimensões importantes de humanidade. É preciso estar atento para isso e insistir em abordagens que privilegiem o humano, colocando uso de computadores como uma opção que melhore aprendizagem e elaboração do saber.

Para conhecer melhor o trabalho do Prof. Jarbas Novelino Barato, acesse o seu site em http://jarbas.wordpress.com.

 


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