"As
novas tecnologias já dominam dimensões importantes das
vidas dos cidadãos. Deixar a educação de fora é
uma atitude pouco inteligente". Ao justificar a tendência
cada vez mais acentuada de adoção das tecnologias de
informação e comunicação pelas escolas, o
professor Jarbas Novelino Barato, mestre em tecnologia educacional e
doutor em educação, sinaliza que estamos diante de um
processo irreversível.
Mas
essa estrada sem volta apresenta uma série de bifurcações
e atalhos, muitos deles ainda a serem desbravados por educadores e
especialistas. Nesse momento de descoberta, Jarbas prefere uma
postura mais equilibrada, "sem deslumbramentos ingênuos, nem
críticas inconseqüentes". Na entrevista
a seguir, ele sugere uma remodelagem completa na arquitetura das
salas de aula para acomodar as novas tecnologias e atenta para o fato
de que a ferramenta por si só não resolve nada sem seu
principal combustível: a imaginação.
Quais os principais argumentos favoráveis
ao uso dos computadores em sala de aula?
Os computadores são,
cada vez mais, instrumentos que facilitam o acesso a informações
e a realização de múltiplas tarefas em todas as
dimensões da vida humana. Ao falar de informação
não estou pensando apenas em facilidades para obtê-las.
Estou pensando nas facilidades que os computadores podem trazer para
que nossos alunos avaliem e transformem informações.
Além disso, penso também na riqueza e variedade de
informações que o tratamento digital proporciona. Há
uma mudança que ainda não aprendemos como aproveitar em
educação: imagem, som, movimento, representações
manipuláveis de dados e sistemas (simulações),
todos integrados e imediatamente disponíveis, oferecem um novo
quadro de fontes de conteúdos que podem ser estudados,
manipulados, pesquisados e transformados em processos de
aprendizagem. Toda essa riqueza está disponível por
causa dos computadores. Precisamos apenas encontrar modos criativos
de aproveitá-la.
Na sua pergunta há
uma expressão que me agrada: "computadores na sala de aula".
Estamos mais acostumados à idéia de "computadores na
escola ou na educação". E no cotidiano escolar, as
novas máquinas têm um destino fatal: o laboratório
de informática. Esta é uma solução
infeliz. O laboratório é uma novidade que não se
integra à vida da escola; e a sala de aula continua a ter a
mesma arquitetura de um "escritório" do final da Idade
Média. Se voltassem à vida, meus avós diriam que
as salas de aula são as mesmas que conheceram no final do
século XIX.
Entendo que os
computadores precisam ir para uma sala de aula inteiramente
transformada. Usos conseqüentes de meios digitais em educação
deveriam transformar inteiramente a arquitetura interna das salas de
aula. As carteiras escolares deveriam ser a primeira coisa a
desaparecer do ambiente. Não seria necessário que cada
aluno tivesse um computador. As máquinas poderiam ser alojadas
em estações de trabalho a serviço de projetos
coletivos dos alunos. Máquinas portáteis poderiam ser
deslocadas no espaço de acordo com as necessidades de
trabalho. É claro que seria necessário organizar o
espaço para projeções. Outra coisa: seria muito
bom contar com recursos de som que não ficassem reduzidos
individualmente a cada máquina. Os móveis da sala de
aula, uma vez eliminadas as carteiras escolares, deveriam ser algo
bem confortável. Aliás, em vez de sala de aula, o
ambiente físico de aprendizagem deveria ser transformado num
"laboratório" (um local de produção de
saberes). Sugiro aqui apenas uma direção, mas acho que
é preciso fazer um sério estudo de arquiteturas de
interiores para redesenhar completamente os ambientes de
aprendizagem.
De que forma os computadores devem ser utilizados
em sala de aula para que eles atinjam todo seu potencial como
ferramenta educacional? Quais as aplicações mais
promissoras?
Minha primeira
resposta é: não sei. Essa ignorância é um
grande limite e uma vantagem. É um grande limite porque
ninguém pode afirmar com certeza quais são os melhores
caminhos para usos dos computadores em educação. É
uma grande vantagem porque nesse campo de ignorância geral
todos estão autorizados a buscar soluções.
Posso dar alguns palpites que devem ser vistos com muita cautela. Num
artigo recente utilizo a seguinte definição: tecnologia = ferramenta +
imaginação. Acho, portanto, que usos educacionais de
computadores somente serão conseqüentes se os educadores
descobrirem formas imaginativas de empregar recursos digitais em seu
ofício. Para clarear isso, recorro a um exemplo. Costumo
perguntar a meus alunos de licenciatura como é que o Word pode
ser utilizado em educação. Falta imaginação
às respostas. Mas há saídas. Uma delas é
a de adaptar a antiga proposta de redação colaborativa
à produção de textos no Word.
Basicamente essa
proposta consiste na criação de um início de
texto cujo término é uma situação que se
abre para dois ou mais caminhos. Os alunos são convidados a
continuar o escrito. Essa atividade antes era feita com papel e
lápis. No processador de texto ela oferece a possibilidade de
tornar a produção mais dinâmica e "profissional".
Com isso, sem qualquer mudança em sua estrutura, o Word passa
a ser um belo instrumento para incentivar redações.
Bons professores, se associarem criativamente redação
cooperativa e Word poderão fazer trabalhos muito
interessantes.
Como podem imitar
quase tudo, os computadores são ótimos para oferecer
aos aprendizes ambientes de simulação onde é
possível verificar teorias, testar hipóteses, conduzir
experimentos "frios" (sem perigos de qualquer ordem para o
experimentador, para o meio ambiente e para outras pessoas), realizar
descobertas, confrontar diferentes pontos de vista etc. Simulações
baseadas em modelos bem fundamentados do ponto de vista científico
são, na minha opinião, o que há demais promissor
para usos educacionais de computadores. Durante cerca de cinco anos,
uma equipe que eu coordenava desenvolveu um modelo de simulação
no campo da microbiologia (o Microguerra). O programa lidaria
com cerca de cento e sessenta variáveis de um modo bastante
parecido com as muitas possibilidades de relação entre
microorganismos e hospedeiros humanos (uma versão preliminar
de nossa simulação já permitia o desenho de
milhares de diferentes tipos de bactérias e vírus, além
de alguns milhares de perfis de pacientes humanos). Mas o projeto foi
abortado. Motivo: eu disse a quem de direito quanto custaria produzir
a versão final do Microguerra.
Mas há muita
coisa que exige quase que apenas criatividade e imaginação
dos educadores. Neste momento, acho que as melhores promessas são
as tecnologias da informação da Internet. Para
aproveitá-las, podemos contar com modelos de organização
de informações com WebQuests, WebGincanas, HotLists
etc. Podemos trabalhar com blogs e com Wiki. Podemos desenvolver
projetos colaborativos que utilizem plataformas de comunicação
como e-mail, listas, grupos de discussão, fóruns etc.
Nenhuma dessas possibilidades funciona automaticamente. Elas precisam
ganhar vida a partir de propostas educacionais imaginativas.
Em seu blog,
o sr. publicou uma frase de Neil Postman que diz: "As
TICs já venceram a batalha, não adianta continuar a
luta contra elas, cabe agora discutir os termos de rendição".
O que o faz crer que a incorporação das TICs pela
educação é um processo irreversível?
A
escola até pode ignorar as novas tecnologias de informação
e comunicação, mas as TIC's continuarão a
ocupar espaços cada vez maiores no mundo em que vivemos. Novas
tecnologias mudam tudo. Exigem espaço e grana. Combatem e até
aniquilam as velhas tecnologias. Isso é um processo histórico
irreversível. Precisamos compreender o que acontece. Ver quais
são os prejuízos, quais são os ganhos.
Precisamos não nos iludir com falsas promessas (coisa que os
vendedores de máquinas e de sistemas fazem com muita
freqüência). Precisamos vencer sentimentos de admiração
que nos impedem de avaliar com clareza e equilíbrio o
potencial dos novos meios de comunicação. A rendição
à qual se refere Neil Postman caminha nessa direção:
nem deslumbramentos ingênuos, nem críticas
inconseqüentes. Se usar uma linguagem militar, a gente pode
dizer que é necessário preparar-se para uma rendição
negociada, não uma rendição incondicional. Desta
forma ganharemos espaço para evitar a perda de algumas das
virtudes das velhas tecnologias.
A
escola até pode ignorar as novas tecnologias, mas estas
continuarão a fazer a cabeça das pessoas fora da
escola. Continuarão a exercer um papel importante na formação
de identidades, na ocupação do tempo livre, na
comunicação pessoal e profissional etc. Assim, mesmo
que as escolas não usem TIC's intencionalmente, os novos
meios de comunicação já estarão presentes
nos ambientes de aprendizagem. Neste sentido, o processo é
irreversível, pois ele já domina dimensões
importantes das vidas dos cidadãos. Deixar a educação
de fora é uma atitude pouco inteligente.
O que
o sr. achou do estudo realizado na Unicamp que aponta queda de
rendimento dos alunos que usam os computadores para realizar as
tarefas escolares?
Os
dados da pesquisa revelam um fenômeno que não é
estranho. Os estudantes observados usam o computador para suas
tarefas escolares num ambiente que tem apelos muito mais atrativos
que as tais tarefas, o que pode ser um impedimento em algumas
situações de estudo. Não basta acesso a
computadores. É preciso contar com propostas que engajem os
alunos em aventuras de aprendizagem que valham a pena. O episódio
da pesquisa da Unicamp merece atenção. Há muita
gente que pensa que simples uso de computadores fará milagres
de aprendizagem. Bobagem. Novos meios exigem novas maneiras de
apresentar informações, de propor trabalho, de sugerir
caminhos. Exigem uma nova alma. Sem isso, a concorrência de
jogos, filmes, músicas, comunicação com amigos,
fofocas de todos os tipos ganharão facilmente a atenção
dos estudantes. Os trabalhos escolares no caso serão feitos
apenas para cumprir tabela. Não há nada de estranho
nisso. Dificilmente os alunos aprenderão mais e melhor num
cenário assim. Eles farão no computador as tarefas
escolares sem vontade e sem capricho.
Há
aqui um alerta importante para pais e escolas. Os vendedores prometem
paraísos de aprendizagem com a compra de máquinas e
serviços de distribuição digital de informações.
Ferramentas não garantem per
se bons
resultados. No caso das escolas, o investimento mais necessário
não é o de máquinas e equipamentos, é o
de capacitação dos educadores e da criação
de novos ambientes de aprendizagem. No caso das famílias, os
pais geralmente têm uma visão mágica dos
computadores, ignorando que além de máquinas é
preciso que seus filhos tenham desafios que justifiquem dedicação
em produções apoiadas por computadores.
Como o
sr. vê as críticas que alguns especialistas fazem ao uso
dos computadores na escola, dizendo que as máquinas forçam
um pensamento abstrato que não é próprio para as
crianças e que os aparelhos prejudicam a imaginação
e levam à indisciplina mental? Quais seriam as formas de
atenuar possíveis danos que os computadores podem acarretar às
crianças devido ao seu uso indiscriminado?
Acho que o teor abstrato de funcionamento de computadores é
uma questão programática, quase sempre invisível
para quem usa tais máquinas. Neste sentido, não vejo
qualquer prejuízo que o uso das máquinas possa trazer
em termos de criatividade ou imaginação.
Talvez o tipo de raciocínio que permite programar -
apelidado de raciocínio instrumental pelo cientista Joseph
Weizenbaum -
limite modos de apresentar conteúdos e sugerir atividades para
os estudantes (crianças, jovens ou adultos). Weizenbaum
critica bastante o entendimento de que vale a pena considerar apenas
aquilo que é programável. George Miller, por exemplo,
num artigo que escreveu sobre usos educacionais de computadores no
início de dos anos de 1970, observava que um mau-caráter
assistido por um computador não deixa de ser um mau-caráter.
Há dimensões da experiência humana que não
são programáveis. Tais dimensões, na visão
de gente como Weisenbaum e Miller, cientistas que conhecem e usam
computadores em seus ofícios, não podem ser deixadas de
lado. Esta é uma discussão importante quando se quer
conversar sobre usos educacionais de computadores.
Do lado dos educadores, é preciso evitar deslumbramentos e
propor atividades que impliquem em aprendizagens em uso de outros
raciocínios que não o instrumental. Do lado dos pais é
preciso fazer boas escolhas para não cair no erro de que
simples presença da máquina em seus lares produzirá
herdeiros mais inteligentes. Há coisas muito simples que não
podem ser deixadas de lado. Desenhar à mão é uma
delas. Nada substitui o sentimento de usar o próprio corpo
para criar representações do mundo. Desenho, dança,
esporte, canto, produção de ritmo etc. não cabem
em computadores, mas são dimensões importantes de
humanidade. É preciso estar atento para isso e insistir em
abordagens que privilegiem o humano, colocando uso de computadores
como uma opção que melhore aprendizagem e elaboração
do saber.
Para conhecer melhor o trabalho do Prof. Jarbas Novelino
Barato, acesse o seu site em http://jarbas.wordpress.com.
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