BBC: Quando é bom ou ruim ajudar os filhos com a lição de casa?

BBC: Quando é bom ou ruim ajudar os filhos com a lição de casa?

BBC BRASIL | 12/05/2018

Por Paula Adamo Idoeta

Há cerca de dois meses, a servidora pública mineira Cristina Dorneles, 43, começou a mudar o jeito como ajuda na lição de casa da filha Maria Rita, de 10 anos, aluna de uma escola particular de Brasília.

“Eu sempre a acompanhava, todos os dias. Explicava novamente as questões estudadas, ia até pesquisar no YouTube. Ficávamos até as 23h fazendo as tarefas, mas percebi que ela ficava esperando a minha ordem (para fazer a lição). O fato de eu estar sempre ali estava tirando a autonomia dela”, conta Dorneles.

“Conversamos e eu disse: ‘Vamos fazer de forma diferente? A mamãe acaba te dando uma segurança que nem sempre você vai ter, e você tem que fazer o seu esforço’. Ela ainda está se adaptando, mas ajudo só quando ela tem dúvidas e a gente pesquisa juntas.”

Assim como Dorneles, muitos pais fazem bastante esforço para ajudar os filhos com a lição de casa. Mas qual é a melhor forma de fazer isso?

Uma pesquisa recente da fundação educacional britânica Varkey concluiu que pais brasileiros dedicam uma média de oito horas por semana ajudando os filhos com as atividades escolares – uma hora a mais do que a média global, entre 29 países que participaram do levantamento.

E 46% dos mil pais brasileiros entrevistados na pesquisa acham que não passam tempo suficiente auxiliando na educação dos filhos.

Como ajudar – e como não ajudar?

Mais importante do que o tempo, porém, é o modo como os pais participam da vida escolar dos filhos.

A primeira coisa é nunca ceder à tentação de resolver os problemas da tarefa para as crianças, destacam especialistas ouvidos pela BBC Brasil. E lembrar, assim como fez Cristina Dorneles, que a lição é um momento de praticar autonomia.

“A tarefa é para o aluno, não para o pai. É de se questionar se ele se envolve demais e com muita frequência na tarefa do filho”, diz Silviane Bueno, diretora escolar no Balneário Camboriú (SC) e autora de dissertação de mestrado sobre lição de casa na Universidade Federal de Santa Catarina.

“É o momento em que o aluno se depara sozinho com seu conhecimento, e isso não pode exigir sempre a presença de um adulto.”

Dito isso, acrescenta Bueno, os pais têm um papel importante na lição de casa: principalmente para as crianças menores, é ajudar a preparar o ambiente – um local bem iluminado, organizado e silencioso – e a controlar o tempo, “para que o filho não acabe se distraindo e ficando quatro horas fazendo a mesma tarefa”.

É o que Cristina tem aprendido em seu novo modo de acompanhar a vida escolar tanto de Maria Rita quanto do filho mais novo, Davi Henrique, de 5 anos.

“Já ensinei que ele é que tem a responsabilidade de me dizer quando tem lição de casa. E criamos uma rotina: o Davi toma banho ao chegar da escola, janta, descansa um pouco e eu leio para ele a tarefa (o menino está em processo de alfabetização), mas é ele quem faz.” Com Maria Rita, Dorneles tem focado seus esforços em mostrar à filha em quais fontes confiáveis ela pode buscar dados para tirar as dúvidas das lições.

Silviane Bueno sugere ainda explicar às crianças a importância de limitar o acesso a eletrônicos – celulares e tablets – durante a lição: “As crianças hoje já funcionam no modo ‘multitask’ (de fazer múltiplas coisas ao mesmo tempo). É importante que o momento da tarefa seja para elas pensarem, sem interrupções de WhatsApp, e usar os eletrônicos apenas para pesquisa”.

E se a criança deixou a tarefa para última hora e não vai conseguir terminar sozinha?

Bueno acha que nem sempre os pais devem intervir nesse momento. “Às vezes, deixar que a criança vá à escola sem a tarefa e enfrente as consequências disso é um momento educativo. A frustração faz parte do processo”, diz.

Aproveitar para conversar

Vale lembrar que a lição de casa serve, também, para indicar à escola o que os alunos aprenderam ou não. Mais um motivo para os pais serem cautelosos ao intervir.

“A utilidade da tarefa é a criança entender que ela consegue fazer aquilo sozinha, se estiver dentro dos seus limites. E, se ela não conseguir fazer, o professor precisa saber disso”, diz Maria Amabile Mansutti, coordenadora técnica do Cenpec – Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária.

Ao mesmo tempo, as especialistas afirmam que as tarefas de casa podem ser bons ganchos para conversas entre pais e filhos – seja sobre os temas das lições, que podem render bons debates ou leituras em conjunto, seja sobre o cotidiano das crianças na escola.

“A juventude acha que sabe tudo, mas às vezes sua base teórica é o que leu no Facebook. Então quanto mais os pais conversarem, mais deixarão claros seus valores, que serão bases de construção de opinião”, prossegue Bueno.

O paranaense Paulo Sérgio Pacheco, de 43 anos, aproveitou o interesse do filho Paulo Henrique, 11, em um trabalho escolar de filosofia para presenteá-lo com o livro O Mundo de Sofia, obra infantojuvenil de referência sobre o assunto. Ele e a mulher também ajudaram o menino a fazer uma apresentação de PowerPoint sobre filósofos, e a avó vai costurar para ele uma fantasia, com a qual vai apresentar o projeto na escola.

“A gente curte muito o processo de acompanhar a vida escolar dele”, conta. “Eu ajudo mais com as dúvidas de história e geografia, por exemplo, e a mãe, com matemática, sempre deixando ele fazer antes para identificar o que entende ou não e permitindo que ele chegue à própria conclusão. Mas é um processo que não tem hora nem lugar – acontece o tempo todo. Estamos sempre conversando sobre os temas que despertam a curiosidade dele.”

Leia a íntegra da reportagem no site da BBC Brasil

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