Entrevista: A volta da “educação moral e cívica” no Distrito Federal, em perspectiva

Entrevista: A volta da “educação moral e cívica” no Distrito Federal, em perspectiva

NEXO | 15/03/2018

POR ANDRÉ CABETTE FÁBIO

O Nexo conversou com Antônio Augusto Gomes Batista, coordenador de desenvolvimento de pesquisas do CENPEC sobre as origens históricas da “educação moral e cívica”. E onde o seu retorno se insere.

Nexo: Quais são as raízes da “educação moral e cívica” na educação?

Antonio Augusto Gomes Batista: Desde o início, a escola tem essa dupla função geral de ensinar disciplinas como matemática e ciências, e formar a pessoa com valores ideológicos, como identificação com a nação, respeito à pátria, e temas alinhados a comportamento, como ser bom com os outros, cuidar dos mais pobres etc.

O modelo de ensino brasileiro carrega muitas adaptações do modelo de ensino francês. No período do Império [1822-1889] havia essa tendência, mas não havia um sistema de educação [público] para os pobres. Desde a criação da escola republicana, com a [Primeira] República [1889-1930] brasileira, existe essa função de formar esses cidadãos para a nação. É diferente da educação provida pela família, que educa de um modo mais geral.

Surge uma literatura encarregada de transmitir esse conhecimento, e um conjunto de rituais, como cantar o hino, se levantar quando o professor entra, fazer uma oração.

É na época da República que surgem os “livros de leitura”. Não existiam livros de matemática, ciências, português, esses livros eram os únicos materiais de ensino, alguns tinham o nome de “leituras morais instrutivas”. Eles serviam para ensinar a ler e os conteúdos que se liam, que eram majoritariamente morais, instrutivos, e fortemente ideológicos.

A literatura de Olavo Bilac (1865-1918) para crianças é criada nesse momento, com essa função de levar a criança a formar seu caráter para a nação. O uso dessa literatura no ensino brasileiro durou muito, até meados dos anos 1970.

O que houve de diferente na ditadura militar?

Antonio Augusto Gomes Batista: Nos governos militares, assim como nas repúblicas, havia uma forte necessidade de criar um espírito de nação. Houve a criação de um conjunto de disciplinas que buscavam incutir mais diretamente a ideologia dos governos militares, como a educação moral e cívica.

Temos governos que buscam transmitir valores, conhecimentos, ideologias de acordo com certos interesses. Mas hoje se vive uma tensão muito forte. Se em momentos anteriores havia certa aceitação daqueles valores comuns, hoje vivemos em um mundo em que o que é comum é fortemente ameaçado pelo que é diverso.

Com o surgimento das políticas identitárias, é muito difícil se definir o que é correto para a formação da alma da criança. Estamos sempre em uma tensão, questionando o que é um valor comum e o que não é.

Por exemplo: a população negra luta por direitos e por afirmar sua especificidade, seus valores, outros grupos regionais ou de jovens também. Em um mundo em que os valores não são tão compartilhados quanto os do século 19, mas desafiados pela diversidade, a escola fica em uma tensão sobre o que pode ensinar ou não.

O currículo não pode ser extenso, precisa se concentrar naquilo que é essencial para a formação da criança. Leis como essa manifestam a intenção de transmitir um conjunto de conhecimentos que precisam ser discutidos e acertados. Nós vivemos de valores e ideologia, mas não podemos ensiná-los sem um consenso sobre eles.

Hoje, a especificidade é um valor, e o Estado não tem um direito nem legitimidade para impor uma lista de conteúdos que são de interesse de um certo ponto de vista político ideológico.

Propostas como essa revelam desconhecimento do funcionamento da escola e apego a uma escola do passado. A pessoa pensa “no meu tempo, a escola era boa, excelente”. Mas a escola era outra, com outro público, de outro jeito, não existia o contexto de hoje.

Leia aqui a íntegra da reportagem.

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