Volta às aulas: início do ano letivo deve ser encarado como oportunidade

Volta às aulas: início do ano letivo deve ser encarado como oportunidade

UOL | 31/01/2017

POR ANNA HELENA ALTENFELDER*

Nesta semana e na próxima, um movimento diferente começa a ser visto nas cidades brasileiras, não só nas grandes metrópoles, mas também em todos os mais de 5.500 municípios que existem em nosso país. Ônibus amarelos voltam a ser vistos circulando nas estradas. Barcos, também amarelos, retornam aos rios da Região Norte . O trânsito se intensifica nas cidades e, em algumas ruas, é possível observar o aumento do movimento de pedestres e o alarido das vozes de crianças, adolescentes e jovens. O cenário não deixa dúvidas: é época de volta às aulas.

Mas o que esse momento pode significar para os mais de 48 milhões de alunos e alunas matriculados nas escolas brasileiras? Certamente os sentidos são diversos. Para uns, a volta às aulas traz um frio na barriga ante a expectativa de enfrentar o novo, o diferente; para outros, uma ansiedade por começar logo, uma animação de (re)encontrar amigos, de voltar ao ambiente escolar e de aprender coisas novas; já para alguns, significa exatamente o contrário: um desanimo de voltar à rotina, de abandonar as férias e de retomar obrigações. O mais provável, porém, é que todos esses sentimentos estejam presentes e se confundam na cabeça dos estudantes.

Sem dúvidas, o primeiro dia de aula é um dia diferente nas escolas. Tem cheiro, gosto, barulho e movimento de novidade. Ainda que nem tudo seja novo – professores, colegas, cadernos, livros, matérias – há um clima que mobiliza e favorece a vontade de aprender e de descobrir coisas novas. Por isso, é um dos momentos mais importantes do ano letivo e que demanda todo o apoio de pais e responsáveis. Trata-se de uma grande oportunidade para a família estimular o aprendizado, refazendo combinados, estabelecendo metas e ajudando as crianças e jovens a organizarem suas rotinas de atividades e estudos.

A escola também deve fazer sua parte e realizar um bom planejamento, apoiado em seu projeto político pedagógico e com a participação da comunidade. Deve ainda criar condições para que o planejamento possa ser devidamente colocado em prática, selecionando e elaborando materiais didáticos, adquirindo o material escolar necessário e desenvolvendo ações de formação de professores, sem se esquecer da infraestrutura, como reformas e reparos. Afinal, é muito difícil organizar um primeiro dia de aula animado e que ajude a engajar professores e estudantes no processo de ensino e aprendizado sem os materiais adequados, como livros e cadernos novos, ou com a escola sem pintura ou com equipamentos e carteiras quebrados. Infelizmente, por várias razões, isso ainda acontece.

Por todo este Brasil, muitas equipes escolares buscam fazer deste um dia ainda mais especial, organizando, por exemplo, cafés da manhã para as famílias poderem conhecer melhor o espaço escolar, os profissionais que serão responsáveis pelos seus filhos e as propostas de trabalhos e projetos para o ano letivo. Ainda que não haja condições para que aconteça em todas as escolas ou com a participação de todos os pais, trata-se de uma ótima oportunidade para estreitar os vínculos entre a escola e as famílias.

Para que a equipe escolar possa manter seus alunos motivados e interessados durante todo o ano, é preciso compromisso e engajamento de cada profissional no projeto da escola e com a aprendizagem dos seus alunos, mas também é fundamental que sejam garantidas as devidas condições de trabalho, que passam pelos aspectos descritos acima chegando até planos de carreira e salários compatíveis. É aí que entram as responsabilidades das secretarias de educação e do MEC (Ministério da Educação), que devem apoiar as escolas com políticas e programas como, por exemplo, o PDDE (Programa Dinheiro Direto na Escola), que transfere verbas para a melhoria da infraestrutura física e pedagógica da escola, ou programas de secretarias municipais que invistam em laboratórios de educação digital e formação de professores.

O mais importante é que as ações das secretarias e da gestão escolar para garantir equipe, materiais e infraestrutura adequados se deem com planejamento suficiente e em tempo hábil para o início do ano letivo. Caso contrário, continuaremos a assistir notícias de redes de ensino que voltam às aulas sem uniformes, cadernos, livros e até professores. Nessas condições, o que poderia ser um momento promissor acaba por gerar mais desânimo e descontentamento.

Em 2018, a volta às aulas traz mais uma novidade. No final do ano passado, depois de um longo processo que envolveu consultas, audiências públicas e deliberações do Conselho Nacional de Educação, o MEC homologou a Base Nacional Comum Curricular, um documento que estabelece objetivos e direitos de aprendizagem comuns a todos os alunos e alunas, independentemente de sua condição ou lugar de origem. Isso é inédito na história educacional do país.

O documento é um poderoso instrumento de planejamento para os professores e também de acompanhamento para os pais e responsáveis, mas ele indica apenas uma parte do que deve ser ensinado. Por isso, secretarias de educação e equipes pedagógicas das escolas terão mais uma tarefa neste ano: elaborar seus currículos olhando para sua realidade e considerando as características da sociedade, da cultura e da economia regionais e locais. É o momento de analisar a Base e identificar possíveis lacunas para aperfeiçoá-la. Para isso, será muito importante a participação das famílias e dos estudantes.

Embora não seja possível – e nem desejável – apagar a história e começar do zero, todo começo de ano é uma oportunidade de reescrevermos o futuro. Com o início do ano letivo não é diferente. Temos uma boa oportunidade de aperfeiçoar o que já vinha dando certo e também de avaliar, replanejar e corrigir os rumos daquilo que não funcionou como gostaríamos. Enfim, temos uma boa oportunidade de avançarmos, individual e coletivamente, na construção de um projeto educativo que converse com as necessidades e os interesses dos alunos, que faça frente aos desafios da sociedade contemporânea e que leve em conta a importância do contexto e da aplicação do que se aprende à vida cotidiana. Talvez assim, o ano todo tenha cheiro, gosto, barulho e movimento de primeiro dia de aula.

* ANNA HELENA ALTENFELDER é pedagoga, mestre e doutora em Psicologia da Educação e presidente do conselho do Cenpec.

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