Entrevista: Sociedade precisa valorizar seus professores, apontam especialistas

Entrevista: Sociedade precisa valorizar seus professores, apontam especialistas

REDE GIFE | 16/10/2017

Durante o mês de outubro, há uma intensa mobilização para o debate a respeito de uma carreira essencial na formação e desenvolvimento de todos os cidadãos: os professores. Para dar luz a este tema, o RedeGIFE preparou uma matéria especial. Iniciamos a nossa reflexão a respeito da carreira docente, seus desafios e possibilidades no Brasil, em uma conversa com Mônica Gardelli Franco, a nova superintendente do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisa em Educação, Cultura e Ação Comunitária).

Mestre e doutora na área de currículo pela PUC-SP, Mônica atuou como docente na Educação Básica por 20 anos. Foi consultora da UNESCO e gerente executiva da Diretoria de Projetos Educacionais da Fundação Padre Anchieta. Coordenou a implantação do Programa Gestão Escolar e Tecnologias em 13 estados do país. Atuou como diretora de Formulação de Conteúdos Educacionais da Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação e esteve à frente da Associação de Comunicação Educativa Roquete Pinto.

20170901_164438-2

RedeGIFE: Hoje, o desafio do professor é maior do que há 20 anos? O que mudou?

Mônica Franco: Acredito que hoje o desafio do professor é maior devido a diversas variáveis. Há 20 anos, não tínhamos o acesso que temos às tecnologias. O acesso às informações era mais circunscrito a alguns espaços e isso dependia muito do poder aquisitivo das famílias, ou seja, quem tinha televisão, possibilidade de ler jornais e revistas. Assim, os conteúdos além dos muros da escola, podemos dizer assim, não impactavam tão diretamente na ação educativa do ponto de vista didático.

Outro aspecto que tornava o trabalho do professor com menos variáveis era o perfil dos alunos com os quais ele trabalhava. Dependendo do lugar onde a escola estava localizada, já se tinha previamente o conhecimento de que o estudante era do perfil ‘x’, ‘y’ ou ‘z’. Existia um certo controle em relação à cultura, aos hábitos, ao tipo de lazer que frequentava, etc. A escola estava inserida naquele território e dava um certo conforto de entender mais este espaço e se preparar para aquele lócus de atuação.

Porém, nos dias atuais, estas duas variáveis, que se conversam muito, inclusive, trazem um elemento para dentro da escola que é onde os desafios ocorrem. Hoje, os alunos têm acesso à informação por diferentes meios e eles estão cada vez mais cedo nas mãos dos nossos estudantes. E isso faz com que o perfil do professor tenha que mudar.

Só que não temos no Brasil uma formação inicial de professor que converse com essa nova realidade e isso traz um desafio amplo. Se antes a diferença intergeracional, de mudança de cultura, era de 20 anos, hoje, isso mudou para pouquíssimo tempo. Isso traz um complicador de como o professor acompanha os vários processos da criança, de aprendizagem, de desenvolvimento de leitura de mundo, que são muito diferentes. E o professor, que é de uma outra geração, tem dificuldade de fazer essa conexão.

Nesse sentido, o desafio é maior hoje, pois o professor acaba sendo obrigado a aprender em serviço e a se preparar para uma realidade na qual ele não viveu, não teve experiencia, e em uma realidade em constante mudança.

Isso sem falar em outros desafios em relação aos próprios espaços escolares e do ambiente de trabalho do professor, que mudou muito com a chegada de uma massa de estudantes, principalmente no início dos anos 2000. Ou seja, há dois cenários a serem enfrentados: a da relação com os alunos e da ambiência da escola e da dinâmica da profissão.

RedeGIFE: Qual então seria hoje o papel do professor frente a este aluno que tem acesso a tanta informação fora da escola e quer coisas novas, que façam sentidos para a sua vida? Qual deve ser sua postura, planejamento etc.?

Mônica Franco: Havia uma concepção de que o professor é aquele que detém o conhecimento, ou seja, de que ele transmite esse saber, por meio de metodologias adequadas para que os alunos possam aprender. E o que acontece agora, é que o professor ainda precisa saber, claro, mas, acima de tudo, ele precisa saber onde buscar o que está sendo construído, o que está novo. E precisa ter um elemento de problematização deste saber. Ele não vai ser só um mediador entre conhecimento e aprendizagem. Mas o papel do professor, mais do que nunca, é de um provocador para que o aluno possa ler o mundo. Hoje, o grande risco que temos com o acesso facilitado às informações via os meios tecnológicos é os estudantes serem apenas receptores passivos dessas informações. Ou seja, ele busca a informação e apreende sem nenhuma reflexão crítica.

Por isso, o papel do professor é fundamentalmente este: mostrar aos alunos que o mundo tem mais coisas do que eles imaginam e ajudar a desenvolver neles uma capacidade de ler e interpretar o mundo e ver o conhecimento para que eles avancem, para que pensem de outro jeito, sejam capazes, principalmente, de selecionar o conhecimento, o percurso que imaginam. Acredito que o que vai definir a utilização do conhecimento é a postura ética e a ética só aprendemos nos relacionamentos. E o professor tem esse papel.

RedeGIFE: Diversos estudos têm demonstrado o impacto direto de um bom professor para uma aprendizagem mais qualificada dos alunos. Porém, ao mesmo tempo, outros tantos indicadores apontam que os professores brasileiros não são valorizados. Como mudar essa dicotomia? Por que não avançamos nisso?

Mônica Franco: Nas sociedades em que o professor é reconhecido, existe esse olhar da sua importância no desenvolvimento não só da criança e do adolescente, mas o seu papel na construção do país que se quer. Os professores devem ser os estimuladores disso. Agora, é preciso ficar clara a diferença de valorização e de reconhecimento. No Brasil, a gente tem o reconhecimento de que os professores são importantes, ninguém duvida disso, mas eles não são valorizados.

A sociedade é que tem que cobrar. E a valorização diz respeito também a parte monetária, claro, mas não é só financeira. Tem a ver também com as condições de trabalho que são oferecidas a eles. E isso passa pela condição física de trabalho, como oferecer os recursos necessários para desempenhar bem a sua função e o tempo que precisa para se tornar um bom professor. Hoje há professores que precisam trabalhar em mais de uma escola, pouco sobra de tempo para se aperfeiçoar, parar preparar suas aulas e para formação. E isso acaba impactando na relação deles e no desempenho dos alunos.

RedeGIFE: Esta falta de valorização traz um outro desafio já anunciado, que é o ‘apagão’ de professores que já temos e que será ainda mais complicado nos próximos anos. Os professores não têm atuado, inclusive, em suas próprias áreas de formação. O que fazer para reverter este cenário?

Mônica Franco: Se fizermos hoje um cruzamento dos números de matrículas nos cursos de licenciatura, o número de formados daqui a alguns anos, e distribuirmos estes professores no conjunto de alunos existentes, não teremos professores suficientes. Não damos conta. E quando regionalizamos, então, a situação é ainda pior. Por isso, acredito que será preciso encontrarmos uma solução casada, com algumas possibilidades, de curto e de longo prazo.

Neste sentido, as tecnologias podem ajudar. Um grande exemplo é o Centro de Mídias de Educação do Amazonas. Com as dificuldades de deslocamentos que eles têm no Estado, que impedem, por exemplo, de um mesmo professor lecionar em várias escolas, como ocorre em São Paulo, a Secretaria de Educação do Amazonas encontrou uma solução que atende aos desafios existentes, que é garantir que os estudantes possam ter aulas com professores qualificados, por meio de videoconferência e metodologia presencial com mediação tecnológica.

Precisamos também criar estratégias para atrair mais jovens para esta formação inicial, mas isso será em médio e longo prazo. Muitos não se sentem atraídos por conta da remuneração. Assim, no horizonte das políticas, teremos que aliar essa valorização do professor à questão financeira. O Plano Nacional de Educação (PNE) tem prevista a equiparação salarial, mas a questão é que ela esbarra em outras leis, como a do teto de gasto, por exemplo, e outras que são de responsabilidade fiscal.

RedeGIFE: Diante destes desafios, qual o papel das organizações da sociedade civil?

Mônica Franco: Uma coisa que me preocupa bastante é a questão da formação inicial destes professores, de oferecer condições, ferramentas e possibilidades a este professor do ponto de vista metodológico e didático. Ou seja, o professor procura por referências, que os ajudem a desenvolver melhor o seu trabalho. Algumas OSCs atuam com iniciativas neste sentido, como o Cenpec, e acredito que é um lugar importante para atuarmos de forma objetiva com estes professores.

Hoje temos também a discussão da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Acredito que temos que acompanhar o debate e a aplicação de perto, para que ela seja feita da forma mais qualificada, apoiando no monitoramento e avaliação. E, por fim, um lugar que podemos dar contribuições é no novo Ensino Médio, que vai trazer muitos desafios do ponto de vista da implementação. A pesquisa que fizemos “Políticas para o Ensino Médio e desigualdades escolares e sociais” mostra que corremos o risco de trazer mais desigualdades. As organizações precisam também olhar para isso, a qualificação destes jovens, que já vem sendo ‘penalizados’, por não conseguirmos garantir a eles permanência ou qualidade na educação, e que, em muitos locais, não terão percurso a escolher.

Para ler a íntegra da reportagem, clique aqui.

 

Compartilhar:

Deixe um comentário

You must be logged in to post a comment.

/* ]]> */