Perfil: Maria Amabile Mansutti, pedagoga

Perfil: Maria Amabile Mansutti, pedagoga

JORNAL NEXO  | 23/05/2017

A professora conta que o comprometimento é fundamental nessa profissão que pode mudar definitivamente a trajetória de vida de outras pessoas Com quase 50 anos de carreira, a pedagoga Maria Amabile Mansutti foi professora por 17 anos, diretora de escola, e publicou livros didáticos de matemática, educação infantil e EJA (Educação de Jovens e Adultos).

Formada pela USP (Universidade de São Paulo), com especialização em didática da matemática pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), ela conta que escolheu a educação pela relevância da área para a sociedade e afirma que desde o início entendeu a importância de associar a teoria à experiência prática. Dirigiu o departamento de política da educação fundamental do Ministério da Educação e foi consultora de programas educacionais voltados para Jovens e Adultos, desenvolvidos pela Alfasol (Alfabetização Solidária) e o Ministério de Educação de São Tomé e Príncipe.

Atualmente é coordenadora técnica do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária). Segundo ela, apesar de sofrer com a baixa qualidade da educação pública, ainda hoje vê a educação com os mesmos olhos de esperança que via há meio século. O comprometimento, diz, é fundamental para a profissão docente, que pode mudar para sempre a trajetória de vida de outras pessoas e contribuir para a construção de uma sociedade menos desigual. Leia a entrevista completa:

Como você chegou a essa carreira? O que te motiva? Por que você a escolheu?

Aos 19 anos, comecei a atuar como professora em uma escola municipal de São Paulo, em 1968. Ingressei na Faculdade de Pedagogia da USP no ano seguinte e desde o início entendi a importância de associar a teoria à experiência prática. No Brasil, sobrevivíamos à ditadura; na França, o movimento estudantil estava a todo vapor, a Primavera de Praga acontecia na Tchecoslováquia, tudo acontecendo simultaneamente enquanto nós pensávamos em um novo projeto político para o país. Minha escolha para contribuir com esse projeto foi a educação. A motivação era e ainda é a relevância que essa área tem para a sociedade. Tenho certeza de que a educação é a principal via para que a sociedade seja melhor em todos os sentidos: político, econômico, cultural, ético e estético.

Como sua formação está presente no trabalho que você faz hoje?

Nunca parei o que estava fazendo para me dedicar única e exclusivamente aos estudos, pelo contrário, sempre somei a aprendizagem à experiência prática, no dia a dia na sala de aula. Aos 20 anos, ainda no início da graduação, lecionei na primeira escola pública de oito anos: a primeira experiência que integrou o primário e o ginásio. Lecionei por 17 anos, depois fui diretora de escola, trabalhei em quadros técnicos de secretarias de educação e do MEC (Ministério da Educação). Tive a oportunidade de trabalhar com a formação de professores de diferentes redes, elaborar currículos e produzir materiais didáticos. Hoje, com 49 anos de carreira, ainda vejo a educação com os mesmos olhos de esperança que via cinco décadas atrás. É uma grande satisfação para mim que me reconheçam como professora.

O que mudou entre a sua expectativa e a realidade?

Certamente, na juventude era mais idealista, mas nunca fora da realidade… Quando se trabalha dentro de uma escola pública, é difícil sair devaneando. Tive a oportunidade de ver e contribuir em importantes momentos da nossa política educacional, como a democratização do acesso ao ensino público – embora ainda tenhamos problemas na cobertura da educação infantil e no ensino médio. O aspecto da realidade que mais me incomoda hoje, que era uma coisa com a qual não contava, é a baixa qualidade da educação pública. A gente sempre trabalhou para que a escola tivesse cada vez mais qualidade. Hoje, temos mais crianças e adolescentes na escola, mas o direito à aprendizagem e a um ensino de qualidade ainda é para poucos. Ver que muitos alunos do ensino fundamental ainda não estão alfabetizados é algo inconcebível. Afinal, a função da escola é garantir que os estudantes acessem o mundo do conhecimento.

Qual a maior dificuldade da profissão que você escolheu? E qual o melhor aspecto?

Nestes quase 50 anos de vida profissional, reconheço que ocorreram muitos avanços na educação pública, mas ainda há muito a ser feito. A maior dificuldade que encontrei, até por ter razoável experiência de trabalho em órgãos públicos da educação, foi observar a ausência de políticas efetivas para resolver problemas históricos. Precisamos de políticas sistêmicas, de Estado, com metas de curto, médio, e longo prazo. A descontinuidade das políticas é o “pior mal da educação” e com o qual tenho me deparado ao longo da vida profissional. Ainda que os avanços sejam lentos, investir sua força de trabalho, conhecimento, criatividade, em uma área que de fato pode contribuir para que a vida das pessoas seja realmente melhor é algo que me traz muita satisfação.

O que você diria para alguém que está pensando em trabalhar com educação?

O comprometimento é a peça chave para encarar a profissão docente. São muitos os desafios. É preciso compromisso, muito estudo e valorização da experiência prática. Isso vale para quem atua em sala de aula ou em um cargo técnico ou de gestão. Além disso, é importante que os futuros profissionais estejam cientes de que sua atuação pode mudar para sempre a trajetória de vida de outras pessoas e contribuir para a construção de uma sociedade menos desigual. Temos também o desafio de tornar a escola um espaço atrativo, em consonância com o nosso tempo, e isso exige que os educadores sejam capazes de inovar e buscar soluções criativas para que todos os alunos aprendam. Hoje, eu sou uma professora não só quando exerço a profissão, mas quando olho e atuo sobre o mundo. É com esse olhar que toco minha vida e estou satisfeita com isso.

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