A voz dos jovens

A voz dos jovens

Folha de S.Paulo, 14/11/16
Crédto/Foto: Rovena Rosa, Agência Brasil

A educação tem ocupado espaço de destaque nos meios de comunicação nos últimos meses. Isso ocorre não apenas por conta da realização do Enem, principal porta de entrada ao ensino superior no país.

Deve-se, sobretudo, às propostas do teto dos gastos públicos e de reforma do ensino médio, que enfrentam forte resistência de diferentes setores da sociedade, em especial dos estudantes que ocuparam mais de mil estabelecimentos de ensino.

É neste contexto que reverberou nas redes sociais a fala da adolescente Ana Júlia Ribeiro, que defendeu o direito à educação e a posição contrária do movimento secundarista frente às reformas, em sessão na Assembleia Legislativa do Paraná.

Apesar de nossos baixos indicadores educacionais, há muitas Anas Júlias pelo Brasil afora. Por isso, vale destacar outras iniciativas que contribuem para ampliar o repertório argumentativo de nossas crianças e jovens e comprovam que a escola pública é, sim, capaz de promover a aprendizagem.

É o caso da Olimpíada de Língua Portuguesa – Escrevendo o Futuro, que reuniu estudantes do ensino médio finalistas da etapa regional no gênero artigo de opinião, todos da rede pública.

Durante o encontro, além de escrever belos textos, eles debateram com ponderação e bons argumentos os avanços e desafios das políticas para a garantia e ampliação do acesso à universidade.

Em um momento em que faltam diálogo e discussões qualificadas no debate público brasileiro, a fala de Ana Júlia e dos finalistas da Olimpíada trazem pontos de vista diferentes, apoiados em estudos e dados, sobre possibilidades concretas de escolherem seus próprios projetos de vida.

Mas por que, hoje, temos jovens tão engajados? Pela primeira vez no país, há uma população oriunda de classes sociais mais amplas e diversas que se manifesta porque teve mais acesso à educação. Agora, ela quer mais.

O Brasil avançou muito desde a promulgação da Constituição de 1988. Contudo, ainda há muito por fazer. São inúmeros os exemplos do nosso atraso.

Avançamos em todas as modalidades de ensino, mas o buraco era e ainda é muito fundo. Somente em 2014 o Brasil conseguiu ter 61,4% dos jovens de 15 a 17 anos no ensino médio e 17,7% da população de 18 a 24 anos no superior.

Esses números ainda são baixos, mesmo comparados aos países da América Latina. Além disso, amargamos resultados vergonhosos de qualidade, tanto nas avaliações nacionais como nas internacionais.

A ausência de uma política de Estado, de um projeto de país que priorize a educação de seu povo, é um erro que trouxe graves consequências na qualificação da população. Contribuiu, de certa forma, para a permanência de enormes desigualdades sociais.

Refletir sobre essa perspectiva nos ajuda a contextualizar as escolhas que o país precisa fazer diante da grave crise fiscal atual e da discussão sobre os gastos públicos.

Talvez nada seja mais ideológico do que apontar caminhos e saídas com foco exclusivo na economia, ainda que ela seja fator fundamental. 

Sem uma população com níveis adequados de educação, não conseguiremos ser um país desenvolvido em nenhuma das métricas internacionais. É preciso encontrar novos caminhos e cabe a nós, sociedade brasileira, traçar esse rumo.

Os jovens podem e devem ser incluídos nesse debate. Será que mais uma vez cometeremos um erro histórico que poderá nos levar a sair da crise fiscal, mas deixará o país novamente na rabeira do desenvolvimento, por comprometermos o futuro de crianças e jovens? 

A opção está em nossas mãos.

MARIA ALICE SETUBAL, a Neca, doutora em psicologia da educação pela PUC-SP, é presidente dos conselhos do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária – Cenpec e da Fundação Tide Setubal. Foi assessora de Marina Silva, candidata à Presidência em 2014

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