Análise: As escolas ‘pobres’ conseguem melhorar seu Ideb?

Análise: As escolas ‘pobres’ conseguem melhorar seu Ideb?

via Estadão

Claro que podem, pois toda criança e jovem pode aprender, independentemente de sua origem social. Mas há condições para isso. Uma delas está nas características do próprio Ideb. Desde meados dos anos 1960, a pesquisa sociológica mostra que, do mesmo modo que na parábola dos talentos, relatada por Mateus, saem melhor na escola aqueles que mais têm: quanto maior o nível socioeconômico, maior a probabilidade de a escola alcançar melhores resultados. Daí uma regra na medida de resultados educacionais: para medir, de fato, o esforço de uma escola e o quanto ela agrega ao aprendizado do aluno, é preciso “descontar” o nível socioeconômico, coisa que o Ideb não faz. 

Não é à toa, por isso, que muitos especialistas consideram que o Ideb não mede as escolas que mais fazem os alunos aprenderem, mas as que têm estudantes com melhor nível socioeconômico. Muitas escolas “pobres” melhorariam seu Ideb, se ele levasse em conta o perfil social dos alunos. Do mesmo modo, muitas escolas que hoje possuem um bom Ideb cairiam no “ranking”, pois pouco agregam em aprendizado: seus bons resultados são fruto do alto rendimento do background familiar dos alunos da escola, cuja lógica os favorece.

Outro conjunto de condições reside justamente nesse esforço da escola, em seu efeito próprio, denominado, pela literatura educacional, “efeito-escola”. O Ideb precisaria medi-lo, subtraindo o peso da origem social dos alunos. Os estudos sobre esse efeito mostram que ele resulta de uma conjunção de fatores que vão, no caso brasileiro, de uma gestão orientada para o aprendizado, passando pelo clima escolar e chegando a uma formação de professores com qualidade, dentre outros. Mostram ainda que esse efeito se potencializa quando todas as escolas de uma rede melhoram em conjunto e que isso só ocorre quando há uma forte política educacional que mobiliza a comunidade escolar, promove mudanças e dá condições para que elas ocorram. Os exemplos do Ceará e de muitos municípios estão aí para quem, livre de preconceitos, quiser aprender a lição e implementá-los, à luz de seu contexto específico.

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Antônio Augusto Gomes Batista é coordenador de pesquisas do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec); foi professor da UFMG

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