Especialistas alertam que Ideb é insuficiente para avaliar ensino no país

Especialistas alertam que Ideb é insuficiente para avaliar ensino no país

Os dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2015, divulgados na tarde desta quinta-feira (8) pelo Ministério da Educação, mostram que, mais uma vez, o ensino médio segue estagnado e cada vez mais longe da meta proposta, e que o ensino fundamental II, que vai do 6º ao 9º, ficou novamente abaixo do índice esperado.

Para entender o significado dos resultados mais recentes, o que significa a estagnação do ensino médio e a dificuldade do atingimento das metas, o G1 ouviu especialistas de várias áreas da educação no Brasil. Veja abaixo os comentários:

Daniel Cara, coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação
“Qualquer análise séria concluirá que o Ideb é um indicador insuficiente para avaliar a qualidade da educação. Por isso, propusemos e aprovamos no [Plano Nacional de Educação] PNE 2014-2024 o estabelecimento do Sinaeb (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica), revogado recentemente pelo Ministro Mendonça Filho. O Sinaeb não acabaria com o Ideb, mas criaria instrumentos mais precisos e cuidadosos, dedicados ao aperfeiçoamento das redes.

“Qualquer análise séria concluirá que o Ideb é um indicador insuficiente para avaliar a qualidade da educação. “

 

Entre os problemas do Ideb está o estabelecimento de metas descontextualizadas, insensíveis aos contextos das redes públicas.

Mas ainda assim, o Ideb nos mostra um caminho: as parcerias público-privadas, de assessoria técnica, mais comuns no Ensino Médio, não dão certo. O Brasil terá que investir em políticas estruturais, como valorizar o magistério, melhorar as condições de trabalho dos professores e ouvir os estudantes que ocupam escolas. Chegou a hora de inovar fazendo o óbvio e não mais ouvindo quem sequer pisou em uma escola pública. Essa, inclusive, é a agenda proposta pelo PNE e que vem sendo ignorada pelo governo Temer, desde sua interinidade.”

Ernesto Martins Faria, gerente de projetos da Fundação Lemann
“Primeiramente, chama atenção a continuidade do avanço consistente nos anos iniciais. Após oito anos de Ideb chegar ao patamar de 5,5 é um bom avanço. Esse avanço pode ser reflexo das políticas de alfabetização e do Ensino Fundamental de 9 ano. Merece uma análise mais aprofundada, apenas, as escolas com desempenho acima de 8,5, que eram casos raros até 2011. As melhores escolas nesse ano tinham um Ideb de 8,6. Hoje, Sobral, que tem mais de 30 escolas com resultados, têm um Ideb de 8,8. Os outliers viraram regra lá. O mesmo vale para as 21 escolas do Ceará com Ideb de pelo menos 9 (as únicas do país). Esses resultados tão acima da média geram uma reflexão sobre a dificuldade do que é cobrado nos anos iniciais e mesmo sobre o olhar que algumas redes estão fazendo para a avaliação (com os ganhos e problemas desse olhar).

Já os anos finais, embora apresentem uma melhora nos resultados, ainda não concretizam avanços obtidos nos anos iniciais nos anos anteriores.

Em relação ao Ensino Médio, temos mostrado dificuldades consistentes nas últimas avaliações. Estamos em um mesmo patamar há vários anos. Parece ser um desafio recuperar as defasagens de aprendizagem acumuladas em anos anteriores. É importante frisar que nenhuma rede estadual do país tem conseguido fazer bem, e mesmo as melhores ainda têm resultados bem abaixo do desejável. Vale citar que Mato Grosso do Sul como estado com melhor resultado no indicador de proficiência chama atenção, embora seja um estado com taxas de aprovação preocupantes.

Sobre a meta do Ideb, ela foi feita fazendo uma compatibilização com o Pisa. Vale a pena, quando os novos dados do Pisa forem divulgados em dezembro, fazer uma nova compatibilização. O Ideb 6 representa perseguir o indicador dos países desenvolvidos em 2003, ano do último Pisa disponível no início de 2007.

“O Ideb 6 representa perseguir o indicador dos países desenvolvidos em 2003”

Tivemos algumas redes que conseguiram se recuperar de metas não batidas. Isso tem acontecido menos agora, pois muitas redes se distanciaram muito das metas nas avaliações passadas, e precisam recuperar muito. Avanços em educação exigem políticas estruturantes como currículo e um forte trabalho pedagógico de acompanhamento, mas a boa notícia é que muitas redes evoluíram bastante em dois/quatro anos.”

Anna Helena Altenfelder, superintendente do Cenpec
“Os resultados do Ensino Médio na Prova Brasil da rede pública demonstram que avançamos pouco em Leitura nos últimos dez anos e que estamos no mesmo patamar de 2005 em Matemática. Isto se deve não apenas às políticas desenvolvidas no Ensino Médio, mas também são reflexo dos inúmeros desafios que ainda precisam ser enfrentados nos anos finais do Ensino Fundamenta, onde muito pouco se avançou. É preciso investir mais e melhor na formação continuada dos professores, em especial nas duas últimas etapas da Educação Básica. Outro dado que precisa ser destacado é o de que o Ideb do Ensino Médio da rede pública avançou pouco de 2013 para 2015, passando de 3.4 para 3.5, enquanto que na rede privada houve uma redução de 5.4 para 5.3, esse movimento influenciou o Ideb total (de todas as redes de ensino: públicas e privadas).

“É preciso investir mais e melhor na formação continuada dos professores, em especial nas duas últimas etapas da Educação Básica. “

Recente pesquisa do Cenpec, sobre o Ensino Médio em quatro estados brasileiros (SP, CE, PE e GO), sinaliza que os estados têm, cada vez mais, optado por um modelo de política orientado pela busca da melhoria de resultados por meio do aprimoramento dos processos de gestão, muitas vezes em detrimento de políticas sólidas de formação continuada e de valorização do magistério. Esse movimento tem resultado em uma pequena melhora nos indicadores educacionais, sobretudo nos anos iniciais. Porém, vemos que há indícios de que esse modelo tem limitações e não sustenta a tendência de crescimento a longo prazo.”

Andrea Ramal, especialista em educação
“(A estagnação) significa que não avançamos em problemas crônicos: o currículo desafasado e repleto de disciplinas, o pouco preparo dos docentes para inovar no ensino e a infraestrutura deficiente das escolas. Para melhorar, considerando a defasagem a que chegamos ao longo de tantas décadas, há que investir na educação básica, formar professores e melhorar a sua remuneração, para captar os melhores talentos. Há que instaurar políticas educacionais com mais continuidade, em vez de reinventar a roda a cada ano. E, claro, colocar a educação na pauta do projeto de país, com mais celeridade nas mudanças.

Os estados sofrem da mesma descontinuidade das políticas educacionais que vemos na esfera nacional. Há muita troca de Secretários e outras lideranças e, quase sempre, quando o Governador muda, as ações do gestor anterior são descontinuadas. Para que a educação avance há que desvinculá-la das batalhas políticas, caso contrário, não sairemos do lugar.”

Mozart Neves Ramos, diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna
“Os resultados mostram avanços importantes nos anos iniciais do ensino fundamental, alguma melhora nos anos finais e um ensino médio estagnado em patamares muito baixos de aprendizagem. Mas, mesmo onde estamos avançando de forma consistente, nos anos iniciais do ensino fundamental, estamos observando um aumento crescente e consistente de desigualdade, em termos de aprendizagem escolar, entre os mais ricos e os mais pobres. Portanto, os resultados revelam que a qualidade e a equidade ainda representam um desafio a ser vencido. É preciso ter um olhar mais aguçado nos municípios de maior vulnerabilidade social para reduzir a desigualdade, embora o país deva alcançar as metas previstas para 2021 nos anos iniciais.

Nos anos finais estamos melhorando, mas abaixo do esperado, e assim certamente será difícil o Brasil alcançar as metas previstas para 2021. Nesse caso é preciso, em particular ampliar o regime de colaboração entre estados e municípios com apoio do governo federal, já que esta etapa da Educação Básica, é de responsabilidade destas duas esferas. Nesse caso estamos falando de currículo e de formação de professor num trabalho mais alinhado entre estado e seus municípios.

“O Ensino Médio é o desastre brasileiro, chegamos ao fundo do poço em matemática.”

O Ensino Médio é o desastre brasileiro, chegamos ao fundo do poço em matemática. Precisamos de uma mudança urgente. A boa notícia é que já temos resultados muito bons no ensino médio quando esta oferta se realiza mediante educação integral em tempo integral, seguindo os exemplos de Pernambuco e do Rio de Janeiro. Nesse sentido é gratificante saber que o Ministério da Educação, em parceria com os secretários de Educação dos Estados e setores da sociedade, começa a esboçar uma proposta para reverter esta grave situação do ensino médio. Mas é preciso agir e rápido. Sem jovens bem formados não teremos futuro sustentável”.

Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco
“(A estagnação no ensino médio) significa que está mudando a composição dos alunos que chegam ao Ensino Médio. Há uma diversidade de perfis de jovens, que necessitam de ações focadas para assegurar a aprendizagem de todos. Essas ações dizem respeito a três dimensões primordiais, que são: currículo, formação de professores e gestão. Sobre a qualidade do ensino pesam, sobretudo, os desafios relacionados ao currículo e à aprendizagem. O modelo curricular do ensino médio é ultrapassado, baseado em um número excessivo de disciplinas, o que torna a etapa desinteressante para o jovem do século 21 e em descompasso com as demandas e necessidades da sociedade contemporânea. Os jovens estão desengajados do processo pedagógico. Não faz sentido, no mundo de hoje, o excêntrico desenho brasileiro em que todos os estudantes têm de aprender todo o conteúdo das mesmas 12 a 14 disciplinas obrigatórias, independentemente de suas vocações e projetos de vida. A trajetória única e a falta de conexão com a diversidade dos jovens e suas possibilidades de empregabilidade – somadas ao excesso de conteúdo no currículo e às dificuldades estruturais dos sistemas de ensino – geram desinteresse, incompreensão sobre a relevância das disciplinas, baixo engajamento com a aprendizagem e, consequentemente, fraco desempenho, evasão e abandono.

“Não faz sentido, no mundo de hoje, o excêntrico desenho brasileiro em que todos os estudantes têm de aprender todo o conteúdo das mesmas 12 a 14 disciplinas obrigatórias, independentemente de suas vocações e projetos de vida.”

Um currículo flexível cria a possibilidade de, durante os três anos de Ensino Médio regular, os jovens terem uma boa formação básica aliada a um aprofundamento de conhecimentos tanto em uma trilha acadêmica como em uma formação técnica inicial. Isso aumenta a probabilidade de permanência dos jovens na escola e viabiliza uma entrada mais qualificada no mundo do trabalho, beneficiando principalmente os mais vulneráveis. Trata-se de uma virada radical na perspectiva binária que os jovens têm hoje – universidade ou subemprego. É necessária e urgente uma revisão curricular do Ensino Médio, que torne o programa mais diversificado e flexível. Um currículo que, por um lado, possibilite a formação dos jovens para a sociedade de conhecimento globalizada e, por outro lado, responda aos anseios destes jovens por maior participação do processo de ensino-aprendizagem.

Sobre a formação do professor, que é o coração do processo de ensino-aprendizagem, é necessária uma formação voltada para a prática em sala de aula, que prepare o professor para o imenso desafio que é dar aulas para a diversidade de juventudes que temos hoje. E no caso da gestão escolar, é fundamental que coloque a aprendizagem dos estudantes no centro do processo e da tomada de decisões. O gestor escolar precisa apoiar o professor na interpretação dos indicadores de proficiência e na aplicação deste conhecimento em sala de aula, aprimorando o processo pedagógico, para melhorar os resultados de aprendizagem. Necessárias políticas públicas focalizadas nos mais vulneráveis e que demonstrem eficácia e efetividade.

O que é importante ressaltar é que os indicadores como Pisa e Saeb são fundamentais para oferecer um retrato da situação de aprendizagem de nossos estudantes e orientar ações focalizadas. São métricas de aprendizagem. O sentido da elaboração de um indicador como o Ideb é o mesmo dos indicadores internacionais como o Pisa, ou seja, a partir de uma matriz de competências, checar e atribuir valor. No entanto, a metodologia é diferente em três pontos:

  1. Perfil dos estudantes que fazem a prova: O Pisa é aplicado aos estudantes de 15 anos, enquanto que o Saeb (um dos componentes de Ideb) é aplicado nas séries finais do Fundamental I, II e ensino médio.
  2. A matriz de competências: o Pisa avalia a proficiência de Língua Portuguesa, Matemática e Ciências e o Saeb avalia Português e Matemática.
  3. O Ideb corrige a proficiência pela taxa de aprovação. O Pisa só avalia proficiência.

A relação entre os dois indicadores foi estabelecida a partir da definição das metas do Ideb de chegar a 2021 nos níveis que os países da OCDE tinham no momento de sua criação (em 2005). Para o ensino médio, o prazo é 2028. Este nível corresponde a 6 pontos. Estamos na metade, com 3.7.

Estamos avançando, mas precisamos avançar mais rápido.

A cada período de mensuração do Ideb temos um grupo diferente de estados que se destacam, ainda que existam estados com mais dificuldade de avançar. Inclusive alguns com indicador mais baixo se destacam. A rede pública, por exemplo, melhorou. É uma melhora pequena, mas ainda é muito baixo.

Os estados que melhoram – PE, GO, ES, PI e AM – são aqueles que investem com persistência na gestão voltada para aumentar os resultados de aprendizagem. A melhoria, ainda que pequena, é fruto de uma política contínua que persegue a aprendizagem dos estudantes. É importante ressaltar que o não cumprimento da meta não significa abrir mão de alcançá-la, muito pelo contrário. Esta situação exige que os diversos atores implicados intensifiquem os esforços para a realização das ações no sentido de alcançar as metas, como gestores, coordenadores pedagógicos e professores. Qualquer meta a ser alcançada necessita de um planejamento, ações focadas, resultados definidos em marcos temporais e monitoramento constante.”

Olavo Nogueira Filho, gerente de projetos do Todos Pela Educação
Olavo Nogueira Filho, gerente de projetos do Todos Pela Educação, atribui a estagnação do desempenho ruim no ensino médio brasileiro à defasagem do currículo. “A grade curricular precisaria mudar. É um período intenso na quantidade de disciplinas, com conteúdo desalinhado em relação à maioria dos países que têm bons resultados”, afirma.

Ele diz que os estudantes brasileiros ficam pouco tempo na escola – e que o estudo em período integral seria uma alternativa para melhorar os índices educacionais. Mas ressalta: não basta manter o adolescente por mais horas no colégio, sem repensar a estrutura do ensino. Olavo sugere que sejam selecionados os conteúdos essenciais para serem lecionados no ensino médio, de modo que o aprofundamento ocorra só depois, na etapa acadêmica ou técnica dos estudos. Outra questão que precisaria ser pensada com urgência, de acordo com o especialista, é a formação dos professores. “A estrutura privilegia o ensino teórico, em detrimento de questões da prática de ensino. Não significa ter menos teoria e mais prática, e sim que os dois aspectos se conversem”, afirma.

Mesmo que as metas de 2021 sejam alcançadas, o Brasil ainda estará distante do desempenho dos melhores em educação no mundo. De acordo com Olavo, os índices esperados não são ambiciosos, e sim compatíveis à realidade brasileira, que, de acordo com ele, não priorizou a educação pública.

João Batista Araujo e Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto
“O ensino médio só vai começar a melhorar depois que melhorar significativamente o ensino fundamental. Os resultados da Prova Brasil de 2015 mostram que hoje temos 50% dos alunos do 5º ano chegando às competências básicas: isso significa que 50% dos alunos ainda não chegaram. Essa geração vai chegar ao ensino médio daqui a 4 anos, sem preparo. Portanto uma reforma educativa precisaria começar do ensino fundamental – ou mesmo antes, com políticas robustas para a primeira infância, para garantir a prontidão escolar. Não temos nada disso. (…) Mesmo com um ensino fundamental adequado, é imperativo diversificar o ensino médio. Este assunto finalmente entrou na pauta – resta ver ser teremos uma solução adequada.

“O ensino médio só vai começar a melhorar depois que melhorar significativamente o ensino fundamental. “

A única forma de se estabelecer uma comparação internacional é por meio de um teste igual ou um teste que tenha alguns itens (chamados itens-âncora) que sejam estatisticamente validados. Isso não existe no Brasil. O Ideb é um índice que mistura dois conceitos: conhecimentos, refletidos pela nota da Prova, e progressão (taxa de aprovação). Como demonstrado no Boletim IDados da Educação [site com análise de indicadores do instituto], há várias combinações de notas e taxas de aprovação que resultam na nota 6 e, portanto, o número fornecido pelo Ideb não tem utilidade para nada – muito menos como parâmetro para comparação. Mas, ainda que o Ideb tivesse consistência como indicador, a comparação teria que ser feita com uma prova inteira ou com itens-âncora devidamente calibrados. Os resultados do Brasil no Pisa mostra quão longe estamos de qualquer nível internacional: a maioria de nossos alunos do 2º ano do ensino médio tem desempenho equivalente a alunos das séries iniciais dos países da OCDE.

Ficar acima ou abaixo da meta é irrelevante, pois as metas do Ideb foram estabelecidas de maneira arbitrária, sem qualquer conexão com políticas ou intervenções que pudessem contribuir para alcançá-las. A questão relevante é se há uma rota para melhorias. Para isso é preciso distinguir redes estaduais de redes municipais, não dá para falar de ‘estados’, pois são entidades diferentes. O país carece de uma reforma educativa consistente. Há algumas tentativas em curso, especialmente em alguns municípios e algumas poucas redes estaduais, mas nenhuma dela é robusta o suficiente para gerar resultados consistentes e garantir a continuidade. Como faltam as condições básicas, os resultados podem ser revertidos a qualquer momento – como podemos ver em saltos significativos que ocorrem aqui e ali. Muitas vezes isso decorre de simples medidas administrativas, de implementar a ‘moralidade convencional’ com medidas com ter programa de ensino, ter material adequado e assegurar que o professor dá aulas. Como há situações de extrema penúria, com poucas medidas se podem lograr saltos notáveis em pouco tempo. O difícil é manter a consistência – por isso é raro vermos os mesmos municípios figurando entre os melhores nas diferentes rodadas da Prova Brasil.”

Para acessar a publicação original, clique aqui. 

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