Ideb 2015 do ensino médio e as ocupações das escolas têm relação? Sim, têm

Ideb 2015 do ensino médio e as ocupações das escolas têm relação? Sim, têm

Nesta quinta-feira, 8 de setembro, o Ministério da Educação vai apresentar os resultados do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), um índice que busca dar uma espécie de “nota” à educação no Brasil, com inúmeros limites.

Os resultados preliminares são desanimadores, principalmente no ensino médio, com notas ainda mais baixas.

Abre-se, então, espaço para a construção de uma narrativa de flexibilização do currículo, que, em tese, pode ser uma boa ideia. Mas, não, como tem sido discutida entre muitas redes estaduais e fundações empresariais de educação, algumas delas sérias.

Os governos falam, falam sobre educação, e fazem praticamente nada. E a solução que deve se propor agora (pelas movimentações políticas que observamos) é o famoso “mais do mesmo”. Afinal, há muitos anos, muitas redes estaduais têm parceria com fundações empresariais para propor soluções para o ensino médio. E até agora nada avançou. Pelo contrário, como deve mostrar o Ideb 2015, a situação piorou.

As soluções para a crise do ensino médio que surgirão no cenário para o público em geral devem desfilar vestidas de inovação. No entanto, novidade mesmo seria valorizar os professores, valorizar boa pesquisa pedagógica sobre o ensino médio, além de uma proposta de interação com os estudantes –isso, sim, fundamental, especialmente nessa etapa.

Não é à toa que estudantes de ensino médio ocuparam escolas no ano passado e neste. As ocupações foram, de fato, a maior novidade política em termos de mobilização social no Brasil desde junho de 2013. Os estudantes levantaram discussões a partir de questões muito práticas (reorganização escolar, problema de merenda, problema de infraestrutura) e levaram o debate em direção à necessidade de uma nova pedagogia. Os estudantes estão clamando por uma nova pedagogia.

E os governos estaduais estão mostrando uma grave incompetência nos últimos anos, eles não conseguem fazer essa reivindicação dos alunos se tornar uma pauta de trabalho. Esse é mais um indício de que as articulações com as fundações empresariais (que, em muitas redes estaduais, já somam, pelo menos, 5 anos, chegando em alguns lugares, em até 20 anos de trabalho conjunto), não dão certo uma vez que são alheias à questão fundamental, que é a questão pedagógica. Há, sim, algumas fundações com trabalhos bastante sérios e consistentes.

Pedagogia significa obrigatoriamente ouvir o aluno, criar um ambiente em que o aluno queira aprender. Significa também, obrigatoriamente, dar poder de gestão das políticas educacionais para os professores.

Há muitos educadores muito bons nas redes estaduais, pessoas que não estão sendo ouvidas para construir as políticas de educação. Sim, é claro que também existem muitos profissionais que não são competentes e que não têm a formação adequada, como em qualquer outra área.

Mas passou da hora de investirmos em questões estruturais, como melhorar a formação docente, melhorar o salário da categoria.

Nenhuma rede pública no mundo deu certo sem saber interagir com os educadores. A Coreia do Sul, que era um dos países mais pobres do mundo após a Guerra da Coreia entre Sul e Norte, tornou-se um dínamo em termos de política de educação mesmo sem ter, no início do processo, professores totalmente preparados para dar conta dessa revolução. Eles enfrentaram o desafio dando todo tipo de incentivo e apoio para os professores, mesmo para aqueles com dificuldade, e estruturaram sua politica fazendo com que os docentes tivessem condições de trabalho necessárias para colocar em prática uma boa politica de educação. Não buscaram soluções mágicas, nem ouviram pessoas ”bem intencionadas” alheias ao debate pedagógico.

Ao fim e ao cabo, em termos de politica de educação há muito discurso e pouca seriedade. Ou a solução é estrutural –e isso vai levar tempo e vai exigir suor. Ou então vamos continuar buscando uma bala de prata, como essas baseadas em soluções de muitos movimentos empresariais, que podem até ser bem intencionados, mas que são completamente amadores em termos pedagógicos.

No atual cenário, também passa a existir um outro interesse: captação de recursos junto aos governos. Na política de ensino fundamental dos anos finais e dos anos iniciais, as secretarias têm maior autonomia e têm realizado um trabalho mais dedicado ao fortalecimento da gestão. Já no ensino médio ocorre de tudo. E é importante dizer: as dificuldades do ensino médio se devem a uma incapacidade de muitos governos estaduais de fazer uma boa política de educação para essa etapa. Infelizmente, esse é um fato.

A situação é bem complicada e minha impressão é que vamos entrar ainda mais no buraco, considerando a insistência dos governadores em buscar soluções alheias à razão pedagógica.

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