“Brasil não enfrenta as suas desigualdades.”

“Brasil não enfrenta as suas desigualdades.”

via CULTURA ESTADÃO 

Com 30 anos de atuação, entre escolas, professores e alunos carentes, a socióloga Neca Setúbal diz que educação é sempre um projeto para o longo prazo – mas os governos, ao longo da história,  não dão continuidade aos projetos.

A periferia de São Paulo está entre as grandes preocupações da socióloga Maria Alice Setubal. Dados estatísticos têm mostrando piora da qualidade em muitos destes bairros da cidade e Neca, como a também educadora é conhecida, está atenta a isso, em sua atuação na Fundação Tide Setubal.

A Fundação atua em São Miguel Paulista, na zona leste da cidade, e ali, segundo Neca, veem-se claramente avanços tanto na área social, como na econômica, educacional e cultural. “Levamos em conta os territórios para montar politicas”, explica a também idealizadora do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária – o Cenpec. Que, fundado por ela há 30 anos, cuida da educação em diversos municípios e Estados do Pais.

Neca ficou mais conhecida durante a campanha de Marina Silva em 2014. Mas não por sua dedicação a essas duas instituições – e sim por ser uma das sócias do grupo Itaú. Por causa desta relação, tanto Marina quanto sua seguidora sofreram uma “desconstrução” de imagem, conta. Filha de um ex-prefeito da cidade de São Paulo, Olavo Setubal, Neca não pensa em seguir esse caminho. “Posso ajudar e apoiar de outras maneiras mas não me candidatando a cargo público”, afirma. A seguir, os melhores momentos da conversa.

Estamos a dois meses das eleições. Como vê, hoje, o funcionamento da cidade?
Acho que o tema das eleições ainda não desembarcou na cidade – e nem no Brasil. Mas entendo que é um fato importante. Enfim, a gente vive é nas cidades. São Paulo tem muitos problemas, questões urbanas que atravessam o mundo. E estamos longe desse debate.

O que a levou a acompanhar tão de perto os temas ligados a São Paulo?
Embora eu seja mais conhecida como educadora – afinal, estou há 30 anos nesse setor –, paralelamente eu e meus irmãos criamos uma fundação familiar, a Fundação Tide Setubal. Ela atua em São Miguel Paulista e seu foco é pensar o desenvolvimento local sustentável e as desigualdades.

Tem quanto tempo?
Dez anos. Quando meu pai (Olavo Setubal) foi prefeito (1975-79), minha mãe criou um corpo de voluntários que teve atuação muito forte na zona leste. Em 2005, eu e meus irmãos resolvemos criar a fundação, para recuperar os equipamentos ali criados – uma escola, um hospital e um clube da comunidade, que estavam deteriorados – e pensar em uma atuação na área social.

E nesses dez anos o que se fez, o que melhorou?
Pensando a zona leste, um público que mudou muito foram os jovens. Quando a gente chegou lá eles estavam longe da internet, do acesso a redes, da universidade. E esta passou a fazer parte do horizonte deles. Hoje estão todos conectados ao smartphone… Claro que o Brasil mudou, mas a zona leste mudou bastante, também, em termos de acesso à saúde, à educação. No entanto, continua a desigualdade. As periferias têm questões de mobilidade, de escola ruim, formação de professores mais precária.

O prefeito tinha a ideia de trazer as pessoas para morar mais perto do trabalho. Funcionou?
No começo da gestão, o Haddad tinha o “Arco do Futuro”, programa que ia desenvolver Itaquera e toda a zona leste. Não aconteceu. Acho fundamental essa questão de descentralizar, dar maior poder às subprefeituras. Se queremos pensar um país desenvolvido, precisamos da descentralização, tanto política como orçamentária. Mas há outro ponto, as Fab Labs, centros inovadores que geram empreendedorismo, inovação, atraindo empresas.

Por que as gestões anteriores não faziam isso?
São Paulo é uma cidade complexa, os interesses econômicos e políticos são complicados. Por isso é importante ter um prefeito com força política capaz de dialogar com a Câmara, já que as questões vão passar pelo Legislativo. Precisa de um prefeito forte, para mediar conflitos e impor as ações.

Você vê ao redor candidatos com essas capacidades?
Acho que não temos ainda os candidatos definidos e a gente vai ter que discutir mais, conhecer melhor cada um, ver propostas concretas. Não é questão de fazer mais creches – todo mundo pode fazer –, é pensar propostas que vão interferir na cidade.

Com todo o seu histórico, com os projetos sociais que toca, tendo participado da campanha da Marina, sendo filha de um prefeito, já pensou entrar na política e também ser prefeita?
Gosto muito de política, acho que herdei um pouco disso de meu pai. Mas não me vejo na política, me vejo fazendo uma política não partidária. Fui assessora direta da Marina, uma experiência difícil mas incrível. Aprendi muito. Depois de trabalhar as feridas que ficaram, o saldo foi positivo. A política é o espaço do diálogo, da discussão, da proposta. Acho que meu olhar é dentro da – e a partir da – sociedade civil.

Você apanhou muito na campanha da Marina, não?
Foi. As pessoas diziam “aguenta, Neca, não ligue!” E não está no meu DNA desistir das coisas. Então eu fui, fui, mas quando acabou eu baqueei. Caí mesmo. Eu gosto de política, me filiei à Rede. Mas se eu fosse candidata a qualquer coisa, nunca iriam deixar de dizer, na hora da eleição, que eu sou “banqueira, exploradora”. Sou sócia do Itaú, apesar de nunca ter trabalhado em banco. E vai ser sempre assim. A esquerda gosta de mim fora das eleições, mas quando elas chegam…

Saiu magoada da campanha?
Esse não é o termo. Foi uma campanha muito agressiva, é difícil você sofrer uma desconstrução. Lógico, a Marina sofreu a desconstrução maior. Mas eu fui desqualificada em toda a minha trajetória de 30 anos na área social.

Pode falar um pouco dessa trajetória?
Trabalho na área de educação há 30 anos e criei uma ONG, o Cenpec. Ele atua na educação pública, presta serviços para governos, agências e fundações empresariais dessa área. O foco é aprofundar e entender a questão da qualidade da educação. Atuamos em projetos de aceleração da aprendizagem. Para crianças que têm uma distorção entre sua idade e a série escolar na qual estão.

Como é, concretamente, esse trabalho. Vocês vão até a escola?
No caso de um projeto de aceleração de aprendizagem, ou reforço escolar, desenvolvemos primeiro a proposta, de acordo com a realidade local. Aí tem o contato com os diretores e professores, com técnicos da escola, e vemos a forma de ajudar os professores. Por exemplo, estamos com um projeto em Manaus. Nossa equipe vai até lá, organiza trabalho à distância e presencialmente. A ideia é que eles se apropriem do projeto e prossigam sozinhos.

Estão em quantos municípios e Estados?
Se eu disser que estamos em quase todos os municípios do País pode parecer pretensão, mas é verdade. E explico: é que além de governos ou agências, somos contratados por fundações empresariais – como as da Volkswagen, a Fundação Lemann, projetos com a Itaú Social, já tivemos com a Telefonica… Com o Itaú Social já tivemos alguns prêmios, eles acontecem no Brasil todo. Este ano, estamos fazendo a Olimpíada da Língua Portuguesa. Um projeto que começamos no Cenpec, o Fernando Haddad, quando no MEC, encampou.

A propósito, a educação anda numa situação crítica, não? O que acontece?
Acho que são várias coisas, não há uma só causa. Mas a descontinuidade é um dado forte. Dou um exemplo, o Ceará, que hoje se destaca na educação – é o melhor do Nordeste. Não começou agora, vem de 1994. Lá mudaram os governantes mas o projeto foi mantido.

Ou seja, a falta de continuidade é um dos problemas.
É um fator importante. E não é questão partidária. Porque em São Paulo tivemos o mesmo partido e a descontinuidade nas políticas foi grande. Acho que outro ponto, nosso grande desafio, é que o Brasil não enfrenta as suas desigualdades sociais. A gente avança, depois bate num pântano. Uma mesma política educacional do Oiapoque ao Chuí não é viável. O País tem realidades diferentes, variados níveis de se alcançar a educação.

Há tempos que educação é o grande desafio do Brasil.
Os políticos dizem que ela é a prioridade mas poucos levam isso a sério. Um faz, o seguinte já não faz, a não ser exceções como o Ceará. Ou o Eduardo Campos, em Pernambuco. O Rio eu conheço menos, mas também teve um salto grande. Acho que uma saída é uma taxação.

Taxa para a educação?
Tem que discutir taxar os mais ricos. Como? Não sei, mas tem de acontecer alguma coisa. Você vai perguntar, “ah, você é a favor de taxar grandes fortunas, herança, dividendos…” Não sei. É um desenho que a sociedade tem de construir. Estou aqui dando um conceito…

A educação vai mal por falta de dinheiro ou foco?
Os dois. Mas taxar é um gesto também simbólico. Num país de tanta desigualdade não dá pra não ter isso. É minha opinião, pessoalíssima. Uma questão de coesão social. Qualquer indicador do mundo vai mostrar, os países com desigualdades menores são os de tecido social melhor.

Se tivesse de dar um conselho ao ministro da Educação, o que diria?
Invista no professor. Na carreira do professor. Precisamos de planos de carreira que atraiam bons profissionais. E isso significa o quê? Planos de salários e carreiras e mudar a formação inicial, pois 80% disso está nas universidades privadas. O MEC tem muito poder, tem o Fies, o ProUni, as universidades precisam desses projetos. Acho que dá para criar um diálogo e uma troca entre esses lados, se houver vontade política pra isso.

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