O GLOBO: Um rumo para o ensino médio

O GLOBO: Um rumo para o ensino médio

O GLOBO | ANTÔNIO GOIS 

Nenhum nível da educação preocupa mais do que o ensino médio. É nele em que verificamos os piores indicadores de aprendizagem, repetência e evasão. O descompasso entre o que esperamos dos jovens e o que eles esperam dessa etapa fica evidente em inúmeras pesquisas. A mais recente, divulgada pelo Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária) na semana passada, revelou que 41% dos jovens de quatro estados pesquisados (São Paulo, Goiás, Pernambuco e Ceará) diziam ter como objetivo principal do estudo conseguir um trabalho melhor. Essa foi a principal resposta dada, bem à frente do desejo de continuar os estudos (22%). 

Outras estatísticas mostram que, em todo o país, apenas 17% dos que concluem o ensino médio ingressam numa universidade. E 40% deles sequer chegam a se inscrever no Enem. Ou seja, nem cogitam de imediato disputar uma vaga no ensino superior. Apesar disso, o atual modelo do ensino médio, segundo muitos educadores, é pensado apenas no aluno que quer fazer o Enem ou um vestibular.

O país hoje debate a reforma do ensino médio em duas frentes: pelo MEC, nas discussões da Base Nacional Curricular Comum, e pelo Congresso, onde tramita um projeto de lei sobre o tema. Também na semana passada, secretários de educação dos estados (principais responsáveis pelo ensino médio no país) se posicionaram publicamente em relação a essas agendas. Para eles, tanto a base quanto o projeto de lei precisam pensar num modelo que considere trajetórias flexíveis, dando ao jovem opções de escolha para se aprofundar em diferentes áreas de conhecimento e em cursos profissionalizantes.

Na avaliação do Consed (órgão que representa os secretários estaduais), há o risco de a proposta de Base Nacional Curricular Comum do MEC ser tão ampla que acabe tomando quase toda a carga horária do ensino médio atual, inviabilizando assim a proposta de flexibilidade.

A flexibilização parece fazer sentido é um caminho já adotado em vários países, mas não é isenta de riscos. Um deles é o de aumento da desigualdade, já que jovens de maior nível socioeconômico têm, como demonstrou a pesquisa do Cenpec, melhores condições de optar por escolas de melhor qualidade e por uma trajetória que trará mais benefícios no futuro.  

Muitas das sugestões dos secretários mexem bastante com a vida do estudante. Uma delas possibilita a adoção de um sistema de créditos e módulos, como já acontece no ensino superior. Supondo que um aluno tenha estudado dez disciplinas num ano e tenha sido reprovado em cinco, pelo modelo atual, na maioria dos estados, esse jovem seria obrigado a repetir todas as dez disciplinas. Pela proposta dos secretários, ele poderá prosseguir seus estudos nas áreas em que passou, e teria que fazer de novo apenas disciplinas em que foi reprovado.

Há outras questões que podem gerar polêmica na proposta, como a previsão de que apenas o inglês seja língua estrangeira obrigatória nas escolas, ou que o Enem passe a ser censitário, o que levaria todo estudante ao final do ensino médio a fazer a prova. Aliás, para que o Enem e os vestibulares parem de praticamente ditar o conteúdo ensinado nas escolas, o Consed propõe ainda que esses exames tenham, por lei, que se adequar à Base Nacional Curricular Comum. O mesmo valeria para os cursos de formação de professores.

Ninguém espera consenso absoluto sobre essas propostas. A única certeza é que, do jeito que está, o atual modelo de ensino médio não está funcionando. O momento de debater é agora. 

Leia a íntegra da proposta do Consed aqui, e o estudo do Cenpec aqui. 

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