Oferta de matrículas no Ceará ainda é marcada por desigualdade social, diz pesquisa

Oferta de matrículas no Ceará ainda é marcada por desigualdade social, diz pesquisa

JORNAL O POVO – FORTALEZA 

A diversificação da oferta de matrícula nas escolas públicas estaduais está associada a uma distribuição desigual das oportunidades educacionais, em função da origem social dos estudantes, no Ceará e outros três estados brasileiros. Esse foi um dos resultados preliminares do estudo ”Ensino Médio, Qualidade e Equidade: Avanços e Desafios em Quatro Estados: CE, GO PE e SP”, que foi divulgado pelo Centro de Pesquisas e Estudos em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), na manhã desta quarta-feira, 2.

Segundo o coordenador da pesquisa, Antônio Augusto Gomes Batista, os resultados mostram que a diversificação da matrícula do Ensino Médio deve ser posta em prática com cuidado. “As escolas de tempo integral atraem os estudantes com perfis social e acadêmico mais altos, colocando os estabelecimentos de ensino de tempo parcial em desvantagem no recrutamento de alunos”, explica.

Quanto menor o nível socioeconômico, menor é a probabilidade dos  alunos de se matricularem em escolas de tempo integral. “Os alunos que pecisam trabalhar não vão escolher o ensino integral, que tende a ter maior participação de alunos com maior nível socioeconômico. Então são escolhas forçadas, os jovens tendem a escolher de acordo com certas expectativas formadas pelas suas condições de vida”.

Antônio afirma que essa escolha não é consicente, e quem está no ensino integral possui uma educação melhor. “Se há uma seleção, é preciso cautela ao implementar políticas de diversificação”.

A pesquisa levantou ainda que, em todos os quatro estados, os jovens mantêm uma relação positiva com a escola, veem nela um importante instrumento para uma colocação no mundo do trabalho e esperam prosseguir em seus estudos.

Com exceção de Pernambuco, quanto maior o percentual da matrícula em tempo integral, maior o nível socioeconômico da escola. Em todos os estados analisados, o percentual de professores temporários é menor nas escolas com turmas de tempo integral do que nas de período parcial.

Em Pernambuco, Goiás e São Paulo, o percentual de professores efetivos é maior nas escolas com turmas de tempo integral do que nas de período parcial – diferente do que ocorre no Ceará.

Nos quatro estados, os professores de escolas de meio período têm maior carga de trabalho, se comparados aos das integrais. Ou seja, atendem maior número de alunos e atuam em mais escolas, turnos e etapas de ensino, se comparadas com as escolas com período integral.

Maria Alice Setubal, educadora e presidente do Conselho Administrativo do Cenpec, lembra que a pesquisa contribui para o debate sobre a educação em territórios de vulnerabilidade social. ”Encontramos na visita a campo, em todos os estados, escolas muito boas, onde temos equipes de professores e diretores comprometidos com a educação e jovens que gostam da escola e que respeitam os professores. Isso, especialmente nas escolas integrais”, disse.

O grande desafio, segundo a educadora, é ampliar para todos a política de pensar a educação em tempo integral. ”Como fazer que isso consiga chegar em todos os territórios”, frisou.

Jovens e escola

Ao todo, foram entrevistados 669 estudantes do 2º ano do Ensino Médio dos quatro estado. Para os jovens de territórios vulneráveis, a escola é um espaço de sociabilidade. ‘’A maioria dos alunos gosta da escola, independente se está em turmas de tempo integral, parcial, diurno ou noturno: ele é maior no integral, mas diminui no diurno e mais ainda no noturno”, informa o relatório.

A pesquisa escolheu escolas públicas estaduais localizadas em territórios com maior grau de vulnerabilidade social, com base em índices de localização, violência, etc. No caso do noturno, quase 1/3 dos entrevistados afirma que, se pudesse escolher, mudaria de escola.

A reputação da escola é o principal motivo para escolha da escola pelos alunos de período integral. Entre os alunos do noturno, a escolha ocorre por que ela fica perto de casa e por ser a única do bairro ou município.

Por fim, todos os alunos têm aspirações a continuar os estudos, além de acreditarem que a escola possibilitará uma inserção mais adequada no mercado de trabalho.

Metodologia

A escolha de SP, GO, PE e CE, e não de outras unidades federativas, está relacionada aos bons indicadores de resultados obtidos, conforme o Cenpec. São estados que implementaram, de forma mais abrangente, a ampliação das matrículas em tempo integral e o investimento em reformas curriculares.

Os procedimentos utilizados foram quantitativos e qualitativos, com dados da Pnad/IBGE, Saeb e do Censo Escolar. A análise também contou com a observação das taxas de evasão e abandono, formação docente e a percepção de estudantes dos estados investigados, além de entrevistas com secretários de Educação, técnicos, professores e estudantes.

A pesquisa tem o objetivo de auxiliar no enfrentamento das desigualdades educacionais, com a descrição de políticas implantadas por estados brasileiros para o Ensino Médio.

Dados gerais
– Em todos os estados analisados, as escolas de tempo integral têm menores taxas de distorção idade-série, quando comparadas a outras de tempo parcial. A correlação é maior nos estados com mais matrículas integrais: Ceará e Pernambuco;
– Entre 2008 e 2014, no quesito defasagem, em todos os todos os estados investigados aumentou a desigualdade entre escolas de tempo integral e as de tempo parcial.
– No Ceará, Pernambuco e Goiás, os professores das escolas que têm metade das turmas no noturno têm maior carga de trabalho, se comparados aos das que têm menos da metade no diurno;
– Nos quatro estados, as turmas do noturno são frequentadas por alunos com menor renda e a taxa de distorção idade série é maior entre as matrículas do noturno do que nas do diurno, confirmando dados de outras pesquisas.

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