Acesso a escola de tempo integral no ensino médio é desigual, diz pesquisa

Acesso a escola de tempo integral no ensino médio é desigual, diz pesquisa

FOLHA DE SÃO PAULO

Apontado com uma das principais políticas educacionais para a melhora do ensino, a educação em tempo integral no ensino médio não tem sido oferecida de maneira igualitária entre as camadas sociais da população.

Estudo realizado em quatro estados brasileiros –São Paulo, Pernambuco, Ceará e Goiás– mostra que, em geral, as escolas com maior carga horária atendem aos alunos com melhor situação socioeconômica. A relação é inversa no noturno, modalidade com piores condições de aprendizado: as turmas são frequentadas por alunos mais pobres.

As informações são de estudo divulgado nesta quarta-feira (2) pelo Cenpec (Centro de Pesquisas e Estudos em Educação, Cultura e Ação Comunitária) em São Paulo.

De acordo com o coordenador de pesquisa do Cenpec, Antônio Augusto Gomes Batista, a análise reforça que há uma distribuição desigual das oportunidades educacionais entre os estudantes brasileiros. “As escolhas [dos modelos de escola] não são propriamente escolhas, mas tendem a ser forçadas pelas condições de território e socioeconômicas”, diz.

O estudo indica, segundo Batista, que a diversificação de oferta produz desigualdades educacionais. “A educação que as escolas de tempo integral oferece é muito melhor. Como ela não chega de maneira equânime a todos, há um aumento da desigualdade.”

Em todos os Estados analisados, as escolas em tempo integral têm menores taxas de alunos atrasados (a chamada distorção idade-série), quando comparadas às escolas de tempo parcial. Além disso, as condições de trabalho dos professores são melhores nas unidades com turno expandido.

  Diego Padgurschi – 4.nov.2015/Folhapress  
ANAPOLIS, GO, BRASIL - 04-11-2015: BRASIL QUE MAIS CRESCE - EDUCACAO: Os alunos Leticia Mamedes Novato, 17 e Rainan De Souza Pires, 15, participam do Clube da Horta na escola estadual de tempo integral Dr Genserico Gonzaga Jaime Em Anapolis. O Estado de Goias teve um dos melhores resultados no Ideb (Indice de Desenvolvimento da Educacao Basica) do país. (Diego Padgurschi /Folhapress - (BRASIL QUE MAIS CRESCE) ***EXCLUSIVO***
Alunos em escola integral de Anápolis, em Goiás

O percentual de professores temporários é menor nas escolas com turmas de tempo integral na comparação com as de turno parcial. Docentes de escolas de meio período têm maior carga horária de trabalho, atendendo mais alunos e atuando em mais escolas, quando comparado com a realidade da escola integral.

A análise se debruçou sobre os quatro Estados por terem políticas e resultados similares. Mas o acesso ao tempo integral varia entre eles.

Em São Paulo, 2,95% dos estudantes da rede estadual estavam em tempo integral em 2014, enquanto esse percentual é de 34,76% em Pernambuco. Goiás tinha 2,17% e Ceará, 12,43%.

Os pesquisadores fizeram um trabalho de campo em 24 escolas, seis por Estado, selecionadas a partir de critérios como vulnerabilidade, índice de ruralidade e tamanho das cidades. A partir disso, houve a análise das políticas implementadas em busca de entender como as políticas contribuem para a melhoria da qualidade da educação e equidade.

Os resultados no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) foram levados em conta na escolha dos Estados, mas não entraram na análise. Não há resultados de Ideb por escola no ensino médio, uma vez que a avaliação é amostral nessa etapa.

Foram realizadas entrevistas com 669 estudantes do 2º ano do ensino médio. Em geral, os jovens mantêm uma relação positiva com a escola, encarando-a como espaço de socialização e como instrumento para colocação no mundo do trabalho. A maioria espera prosseguir com os estudos.

PERCEPÇÃO

Mas a diversidades do atendimento também reflete na percepção dos estudantes.

No tempo integral, os estudantes gostam mais da escola do que em outras modalidades. No noturno, por exemplo, um terço dos estudantes afirmaram que, se pudessem, mudariam de escola.

O ensino médio é considerado um dos grandes desafios educacionais do país. “É um tema ainda mais importante no momento em que o país discute a Base Nacional Comum, dada a necessidade de flexibilizar essa etapa”, afirma a presidente do Conselho Administrativo do Cenpec, Maria Alice Setubal. A base está sendo construída pelo MEC (Ministério da Educação) e vai estabelecer os conhecimentos e habilidades essenciais que todos os estudantes devem aprender na educação básica.

Mais de 1,7 milhão de jovens de 15 a 17 anos, idade adequada no ensino médio, estão fora da escola. Além disso, 11 milhões de jovens entre 18 e 29 anos não concluíram o ensino médio, segundo dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE).

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