“Ser professor não é uma coisa missionária. É uma profissão”

“Ser professor não é uma coisa missionária. É uma profissão”

Conhecida por seu trabalho com escolas e pela parceria com Marina Silva em suas duas campanhas presidenciais, a socióloga Neca Setubal fala sobre sustentabilidade, política e a relação com a família

Maria Alice Setubal (Foto: André Brandão)

Maria Alice Setubal carrega um sobrenome que jamais deixaria que ela fosse uma desconhecida. Única mulher entre os sete filhos de Olavo Setubal, sobrinho do fundador do Itaú e que liderou o banco durante décadas, ela faz parte de uma das famílias mais ricas do país. Mas Neca, como é conhecida desde a infância, ganhou os holofotes por outros motivos.

Neca nunca teve interesse em participar da administração da instituição financeira e, depois de se formar no colégio, foi fazer ciências sociais na USP. A família, garante, jamais se opôs ao caminho que decidiu traçar. Em 1987, ela fundou o Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária, o Cenpec, que atua para melhorar a qualidade da educação pública no país. Além disso, em 2006, ela criou a Fundação Tide Setubal, uma homenagem e, de certa maneira, uma continuidade do trabalho voluntário que sua mãe desenvolveu na zona leste de São Paulo.

Foi nos anos 2000 que Neca começou a se envolver mais com o tema da sustentabilidade. Nos grupos e projetos que participava, acabou se aproximando de Marina Silva. A socióloga já conhecia o trabalho da ex-ministra do Meio Ambiente, mas ficou encantada com a força que aquela mulher de fala mansa transmitia. 

Em 2010, Neca participou da primeira campanha presidencial de Marina Silva. A parceria continuou nas eleições de  2014, quando coordenou o programa de governo da ex-senadora. Na segunda vez, no entanto, a experiência foi mais difícil. Na época, Dilma Rousseff, candidata à reeleição, chegou a sugerir que Marina era sustentada por banqueiros. Neca considera que sofreu “uma agressividade muito grande” no período.

Após a derrota nas urnas, a sustentabilidade continuou sendo um objeto de estudo para a socióloga. No ano passado, ela lançou o livro “Educação e Sustentabilidade”, para ajudar na formação de educadores sobre o tema. Na entrevista a seguir, ela fala sobre educação no Brasil, sua experiência na política e o reencontro com a história de sua mãe.

O que te levou a fazer um trabalho com foco em educação e sustentabilidade?
Estou ligada a esse tema já há muitos anos. No Brasil, temos que pensar todas as questões da educação do século 20 que ainda não foram resolvidas — e são questões básicas. Ao mesmo tempo, a gente tem que pensar a educação olhando para frente. Pensar no país, na sociedade onde essas crianças que estão na escola hoje vão viver. E o tema da sustentabilidade é fundamental no mundo de hoje.

Como você se envolveu com a questão da sustentabilidade?
Eu comecei a estar mais atenta a essa questão depois da Rio-92, com a criação da Agenda 21. Participei de seminários, mas ainda de forma muito teórica. Fazia sentido, mas não era uma militância. Nem se falava muito de sustentabilidade na época. Retomei mais fortemente essa questão a partir dos anos 2000, quando casei de novo e fui morar numa fazenda. Acho que essa vivência próxima da natureza me reconectou de forma muito forte com essa questão. Na fazenda, fizemos várias parcerias. Uma delas com a SOS Mata Atlântica para restauro florestal, por exemplo. Depois, me envolvi com o Movimento Nossa São Paulo, que trabalhava com sustentabilidade. E a partir desse contexto conheci mais a Marina Silva.

Como foi a aproximação entre vocês?
Eu já a conhecia como ministra. Num evento promovido pelo Nossa São Paulo, a Marina deu uma palestra em um auditório do SESC e eu fiquei impressionadíssima com a fala dela. Levei um susto. Como aquela pessoa que falava assim, tão devagarzinho, de uma forma tão mansa, de repente tinha aquele auditório inteiro na mão dela? Em determinado momento, o auditório inteiro ficou de pé. Foi um negócio muito forte. Por volta de 2008, 2009, surgiu o movimento Brasil Sustentável, de algumas pessoas da sociedade civil como o Ricardo Young e o Guilherme Leal. A Marina também estava envolvida e participei de algumas reuniões. Uma parte desse grupo lançou a Marina como candidata. Comecei a ter um contato mais próximo até chegar na campanha de 2010.

Como foi participar de uma eleição?
Olha, acho que em 2010 foi mais tranquilo. A Marina não estava no alvo principal. Foi uma experiência interessante. Claro que em 2014 foi outro momento e, enfim, foi muito mais difícil. Acho que foi uma campanha muito agressiva, mas sempre é experiência interessante.

E como foi ter que lidar com essa agressão?
Acho que não tenho muito a acrescentar de tudo que já saiu. Passou, já foi. Foi difícil. Uma desconstrução muito grande da vida da Marina, uma agressividade grande comigo. Acho que faz parte do jogo. Estamos em outro momento agora. Não estou participando de frente nesse momento.

A senhora tem vontade de ocupar algum cargo na política um dia?
Acho que não. Já foi. Enfim, cada momento é um momento, é difícil fazer previsão. Saber quais são as condições, as variáveis daqui para frente, ainda mais agora, nesse momento do país.

O que a senhora pensa sobre filantropia? Muitas pessoas se contentam em dar dinheiro para uma causa, mas a senhora tem outro estilo.
Não é minha forma de atuação, mas acho que a filantropia é importante. Para algumas pessoas, se resume a isso. Acho que não é ruim. E a questão é mais ampla: é você conseguir entender o país que você vive, o contexto em que vive e viver de acordo com alguns valores éticos. Apoiar dando dinheiro é uma forma de atuar. E você pode só doar, mas ser super cidadão em outras coisas.

Olavo Setubal família (Foto: Espaço Memória Itaú Unibanco)

Como é a relação com a sua família?
Sempre foi ótima. Meu pai sempre foi incentivador. Para ele, eu estudar na USP era um valor importantíssimo. Estudar ciências sociais era uma coisa interessante. Ele gostava de ouvir e debater. Acho que todos nós sempre fomos educados pelo meu pai e pela minha mãe com um respeito muito grande aos caminhos de cada um. Nunca teve uma coisa de proibir, de não pode fazer isso, não poder estudar aquilo. Isso era muito do meu pai, mas continua nos meus irmãos. Eles nunca tiveram restrição sobre minhas participações políticas. Nunca houve um questionamento, algo como ‘isso está rebatendo no banco’. Nunca teve um questionamento por parte da minha família.

E, por outro lado, a senhora fica bem à parte dos negócios…
Nunca participei, nunca tive o menor interesse.

O psiquiatra Flávio Gikovate deu uma entrevista para nós e disse que a elite brasileira era muito consumista. Concorda?
Talvez a maioria seja consumista mesmo, mas acho que não é só a elite. A sociedade mundial tem por eixo o consumo. O Brasil cresceu em cima do consumo. O Lula e a Dilma falavam o tempo todo para consumir. Foi o norte do governo. Não acho que posso dizer que a elite consome muito. Ela consome assim como toda a sociedade. Agora, claro, tem muito mais dinheiro e consome proporcionalmente. Mas acho que é uma coisa que vai mudar. Tem que mudar.

O slogan escolhido para o segundo mandato da presidente Dilma foi “Pátria educadora”. Mas o Orçamento da educação foi cortado. Menos dinheiro prejudica a educação ou há também uma ineficiência no uso de recursos – isto é, daria para fazer mais com menos?
Não, eu acho que prejudica bastante. Nós precisamos de mais recursos e de mais gestão. Um recurso mal usado não resolve nada e temos vários exemplos disso. Mas também precisamos de mais recursos para que a gente possa ter professores mais qualificados, com formação, profissionalização e salários dignos.

Muito se discute sobre violência no Brasil, inclusive nas escolas. Esse problema tem a ver com educação?
É muito difícil. É uma questão multidimensional. Mas tem uma coisa cultural. Se você vai atrás da história do Brasil, verá que nós temos um mito que não bate com a realidade, que é de um povo pacífico. Acho que somos um povo muito emocional. Passamos do amistoso para a violência rapidamente. Na história do Brasil, há grandes matanças, rixas familiares. Creio que até hoje é um tabu reconhecer essa questão da violência como um traço cultural forte do brasileiro. Tem outros agravantes, claro, como drogas, desigualdade social, questões do mundo contemporâneo, estresse de emprego. Dentro da escola, um fator que gera indisciplina e agressividade é a falta de diálogo, ter um ensino desconectado da realidade.

O Cenpec tem um trabalho muito reconhecido. A qualidade da educação no Brasil depende muito das ONGs e da atuação da sociedade civil?
Eu acredito que a tarefa é enorme. O governo sozinho não dá conta de resolver todas essas questões da educação. Temos hoje na sociedade civil diferentes organizações, como o Cenpec, e outras ONGs, fundações, movimentos sociais e pastorais que trabalham para isso. Acho que seria fundamental que o governo federal fizesse uma grande articulação em torno de alguns pontos prioritários da educação para atuar em conjunto com a sociedade civil. Faço questão de colocar essa questão, porque realmente os dados são tenebrosos. Se não tivermos consciência disso, vamos continuar pagando um preço muito caro por essa falta de prioridade na área educacional.

Caro como?
Estamos arriscando muito o futuro, diretamente o das crianças e adolescentes, mas também dos pais. Já há algum tempo a mídia vem veiculando a dificuldade de o Brasil ter mão de obra qualificada. Tem sido um empecilho para avançarmos nas questões do desenvolvimento. A discussão política hoje, muito pouco qualificada, é reflexo também de uma educação mais precária. A educação é para o trabalho, mas também para a gente construir uma cidadania mais qualificada, a possibilidade de participar na sociedade de forma mais qualificada. Quando você exige mais transparência, maior controle social das políticas públicas, esse controle só pode ser exercido com uma participação qualificada — e isso exige educação.

A má formação de professores é um dos grandes gargalos na educação do país?
Sem dúvida. Eu costumo falar que a qualidade da nossa educação está diretamente relacionada com a qualidade dos nossos professores. Não existe mágica aí. Mas a educação é muito complexa e nunca a gente pode falar que é um problema só. A formação dos professores é fundamental, mas ela também está atrelada às questões da condição de trabalho. Não adianta ter um professor bem formado numa escola precária, que não tem estrutura nenhuma, ou um professor bem formado que não tem um salário razoavelmente digno, porque aí ele sai. Eu não tenho essa pesquisa, mas dos professores formados pela USP, Unicamp e Unesp poucos devem estar em escola pública. Muitos estão trabalhando nas ONGs e fundações, porque a escola pública não os atrai. A formação tem que vir junto com a profissionalização da carreira de docente. Ser professor não é vocação, não é uma coisa uma missionária. É uma profissão.

Tivemos a aprovação do Plano Nacional da Educação. Mas temos algo para comemorar?
Olha, dizer que não está avançando não é verdade, de jeito nenhum. Eu sempre faço questão de ressaltar os avanços que nós tivemos, especialmente na época do ministro Fernando Haddad [atual prefeito de São Paulo, comandou a Educação de 2005 a 2012]. Foi uma continuidade do que já vem desde o governo Fernando Henrique. Criou-se o Fundeb, o piso do magistério, o Prouni e o Ideb [indicador nacional para monitorar a qualidade da educação]. Tivemos políticas muito importantes, mas o buraco ainda é muito grande. Começamos num patamar muito baixo, avançamos bastante por alguns anos e estacionamos. Ao estacionar, andamos para trás. E o próprio resultado do último Ideb mostra que as avaliações caíram. Nos últimos 20 anos, avançamos muito, mas nos últimos cinco andamos para trás, o que é gravíssimo. Precisávamos continuar avançando no mesmo ritmo para poder compensar o nosso atraso.

Como funciona o seu trabalho? Apesar da sua formação teórica, a senhora parece gostar de ver o que está acontecendo na prática.
É difícil. Eu não consigo escrever uma coisa teórica. Tenho dificuldade de escrever sozinha. Sempre preciso ir conhecer e me envolver diretamente. É um movimento que instintivamente eu faço, não é nem intencional. Quando criei a Fundação Tide Setubal, fui três ou quatro vezes por semana para São Miguel Paulista durante três anos. Por causa do Cenpec, viajei esse Brasil inteiro. É meu estilo. Preciso mergulhar naquilo que estou dirigindo, falando, e depois consigo ir me distanciando. 

A senhora já cuidava do Cenpec. Por que criar outra fundação, a Tide Setubal?
Foi uma coisa muito pessoal, familiar. Minha mãe faleceu na época em que meu pai era prefeito, em 1977. No Natal de 2004, eu conversei com meus irmãos e falei: olha, as pessoas até hoje falam da mãe, vêm me contar histórias. Ela era uma pessoa muito forte, muito carismática. Ela escreveu muitos diários, cartas … Eu me dispus a olhar para isso e escrever um livro sobre ela. Um livro familiar para que nossos filhos e netos possam saber quem era ela. Porque meu pai é muito forte acaba ofuscando toda essa história dela. Fiz isso em 2005. E brinco que foi uma grande surpresa. Fiz para meus filhos e sobrinhos, mas foi pra mim mesma, a maior terapia que fiz na vida.

Por quê?
Quando meu pai foi nomeado prefeito, ela criou um corpo municipal de voluntários na prefeitura. Na época, eu era aluna das ciências sociais da USP e achava aquilo uma coisa absolutamente careta. Quando fui olhar os discursos que ela fez, o trabalho, fiquei muito impactada. Ela tinha uma visão interessante, super aberta. Para mim, foi um susto. E ela fez um trabalho muito grande na zona leste. Em São Miguel Paulista, há três equipamentos públicos com o nome dela: um hospital, uma escola e um clube da comunidade. Aí eu resolvi olhar para lá.

E o que encontrou em São Miguel Paulista?
A escola continuava igual e bem em ordem. Mas o hospital e o clube da comunidade estavam absolutamente deteriorados. Eu me reuni com meus irmãos e sugeri criarmos uma fundação em homenagem a ela. Não era só para reformar esses equipamentos, mas para trabalhar com o desenvolvimento sustentável naquela comunidade e melhorar a qualidade de vida e a cidadania. Em 2006,  a fundação começou a atuar. Eu participava de tudo. Das festas, final de semana ia também, sentava com lideranças comunitárias, com padres, com os caras do futebol, da escola de samba, das ONGs. Foi uma experiência rica e importante na minha vida. No Cenpec, tive a experiência maravilhosa de conhecer o Brasil inteiro, mas é uma experiência num sistema muito protegido de educação.

Qual a sua impressão sobre o país depois de tantas viagens?
Percebi uma grande riqueza cultural, uma vasta diversidade, mas também as grandes desigualdades. Tive a dimensão das diferenças regionais e da impossibilidade de você estar em São Paulo e olhar o Brasil a partir daqui. Acho que isso é muito forte para mim. Se fico muito tempo sem viajar, brinco que preciso sair um pouco porque meu olhar começa a ficar muito paulistano. E não tem nada a ver. Não dá para achar que o Brasil é São Paulo ou que devesse ser. Essa diversidade é algo potente.

Compartilhar:

Deixe um comentário

You must be logged in to post a comment.

/* ]]> */