Bombas dão lugar a euforia e choro com anúncio do governo

Bombas dão lugar a euforia e choro com anúncio do governo

Fonte: Jornal O Estado de S.Paulo, publicada em 05/12/15.

Foto: Hélvio Romero, Estadão

Notícia da suspensão da reorganização das escolas estaduais foi divulgada no momento em que estudantes paravam ruas do centro

A notícia de que a reorganização das escolas estaduais será suspensa foi dada no mesmo momento em que um grupo de estudantes secundaristas fugia da Força Tática da Polícia Militar na Rua da Consolação, na região central de São Paulo. Eram 12h30.

No trajeto entre a Avenida Paulista e a Secretaria Estadual da Educação, na Praça da República, no centro, foram lançadas ao menos 30 bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes. Para tentar retardar o avanço dos policiais, os estudantes retrucaram jogando sacos de lixo na via. Parte dos comerciantes fechou as portas. Quando o grupo chegou à Praça Roosevelt, também no centro, houve a primeira dispersão. Para intimidá-los, os PMs, que até então caminhavam, avançaram em formação de choque, batendo com os cassetetes nos escudos.

O conflito, além de interditar vias em toda a região central -havia bloqueios até na Rua Augusta -, também trouxe transtornos aos passageiros dos coletivos e pedestres, que sentiam os efeitos do gás. Uma idosa passou mal na calçada e teve de ser carregada por dois funcionários de uma loja próxima. “Que vergonha” e “joguem bombas nos filhos de vocês”, gritavam durante a passagem do ato. 

A entrada da Estação Paulista do Metrô ficou fechada por 5 minutos, segundo a Via Quatro, administradora da Linha 4-Amare-la. O temor era de ampliação do conflito. 

Emoção. O clima mudou quando os manifestantes souberam do recuo do governo estadual. Aplausos e choros se espalharam. “Nossa persistência de ocupar e resistir nas escolas é que trouxe a vitória”, disse a presidente da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (U-pes), Angela Meyer. Na Avenida Ipiranga, acesso ao prédio da secretaria estadual, foi feita uma pichação com o texto “A escola é nossa! Ocupar! Resistir!”.  

Aos estudantes se uniram os docentes. Por volta das 15 horas, cerca de 400 professores ligados à Apeoesp, principal sindicato da categoria, militantes de movimentos sociais e estudantes se reuniram na Praça Roosevelt para comemorar o adiamento da reorganização e a demissão do secretário da Educação, Herman Voorwald. No fim de semana, em reunião com diretores de ensino, um dos chefes de gabinete da secretaria defendeu uma estratégia”de guerra” contra as ocupações.  

Um grupo de músicos de escolas de samba animou o ato. De cima de um trio elétrico do sindicato, a presidente da Apeoesp, Maria Izabel Noronha, cobrou que o governo estadual publique a revogação da medida no Diário Oficial. 

Em assembleia, os presentes votaram pela realização de um ato na quinta-feira, na Avenida Paulista. “Vamos abrir 2016 debatendo a organização em cada escola. As escolas vão de forma organizada discutir a forma que tem que ser a saída”, afirmou ela. Maria Izabel ainda condenou a “ofensiva policialesca contra os estudantes”. 

Também houve manifestações e festas no interior. Foi o caso de Sorocaba, que tinha ontem 12 escolas estaduais e a Diretoria Regional tomadas por estudantes. Os jovens que acamparam na frente da Diretoria se abraçaram à tarde e comemoraram o que chamaram de “vitória da educação“.

Ação policial. Desde o início da semana, quando os estudantes decidiram levar às ruas os protestos contra a reorganização escolar, os confrontos com a Polícia Militar, que recebeu ordem para desobstruir as vias da capital, se tornaram frequentes.Apesar das críticas a um possível excesso da ação policial, tanto o governador Geraldo Alckmin quanto o secretário da Segurança, Alexandre de Moraes, têm defendido a postura da corporação.

Grupos com cerca de 30 manifestantes passaram a fechar vias importantes da capital, usando cadeiras escolares e cartazes – e a correr na chegada da polícia, para depois se reagrupar em outro pontos. Atos na Avenida 9 de Julho, na região central, na noite da terça-feira, e na Avenida Doutor Arnaldo, na zona oeste, na manhã de quarta-feira, terminaram em confrontos. O número de detidos passou de 20 – os últimos três foram liberados na noite de ontem. Em todas as ações, os jovens alegaram violência por parte da polícia – que negou truculência e disse invariavelmente estar impedindo dano ao patrimônio e baderna.

Mas as cenas de confronto, incluindo a de jovens recebendo socos de PMs e sendo arrastados, como o Estado registrou anteontem,começaram a repercutir entre organizações de direitos humanos.A Anistia Internacional condenou o que classificou como “crescente repressão às manifestações pacíficas” e “uso excessivo da força pela Polícia Militar”.A entidade afirmou que as “denúncias de agressões e invasões nas escolas ocupadas, imagens e relatos de violência física, uso de bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo e prisões mostram que o governo não está dialogando”.

A Conectas Direitos Humanos diz que o fato de a gestão estadual suspender o processo e anunciar que vai abrir espaço para o diálogo “não apaga o rastro de violência deixado pela sua força policial em brutais atos de repressão contra crianças e adolescentes, a quem deveria proteger”.

“A primeira coisa que nos causa repulsa é tratar um tema de POLÍTICA educacional com polícia. Como fica a responsabilização desses policiais? Vamos esquecer?”, questiona o coordenador do programa Justiça, Rafael Custódio.

Coordenadora técnica do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), Maria Amabile Mansutti lastimou a ação da PM, que precisou ser “brecada”, antes de ter “consequências piores”. / Luiz FERNANDO TOLEDO, JULIANA DIÓGENES, RAFAEL ITALIANI e JOSÉ MARIA TOMAZELA

Festival de música em escola ocupada é mantido

• A ONG Minha Sampa decidiu manter o festival de música marcado para amanhã em escolas ocupadas por estudantes contrários à reorganização da rede. O objetivo do evento, segundo a entidade, “é demonstrar o apoio da sociedade e dos artistas ao movimento dos secundaristas”.

Chamado de Virada Ocupação, o festival teve adesão de mais artistas nos últimos dias, entre eles Clarice Falcão, Céu, Karina Buhr e Chico César. Antes, Paulo 

Miklos, Edgar Scandurra, Criolo e Maria Gadú já haviam confirmado participação. Segundo a ONG, o local dos shows só será divulgado uma hora antes do início, por celular, para quem se inscrever no site do evento.

“Os alunos decidiram manter as ocupações até a publicação da suspensão em ‘Diário Oficial”, a liberação de todos os detidos e de garantias de que não haverá punições a quem participou do movimento”, afirma Anna Lívia Arida, diretora da ONG. “A Virada servirá para lembrar ao governo que não desistiremos até a oficialização da suspensão.” De acordo com Anna, a iniciativa teve a adesão de 2 mil voluntários.

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